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Fronteira Tunísia-Argélia: como foi atravessar a divisa por terra


Não sei você, mas eu, mesmo sabendo que arrumei sozinho minha mochila, num quarto fechado, já tremo na base quando o oficial no aeroporto pergunta se mais alguém teve acesso a ela. Toda essa tensão, porém, não me preparou para a primeira travessia por terra da viagem de volta ao mundo. E olha que já cruzei algumas divisas na América do Sul, mas eram todos hermanos e acostumados com brasileiros.

Para sair da Tunísia, cruzamos parte do país, de Djerba (leste) a Tabarka (noroeste), e essa jornada nos fez viajar com um ônibus noturno bastante desconfortável, esperar algumas horas em rodoviárias na capital, pegar outro ônibus até a última cidade tunisiana e de lá ir de táxi até a fronteira. Isso tudo após passar um dia inteiro na praia. Pronto, temos um desenho de como estava nosso espírito quando chegamos à hora da verdade.

Em Tabarka, perguntamos a algumas pessoas como se fazia para chegar a Annaba, a primeira grande cidade da Argélia a partir da Tunísia. Todos foram categóricos sobre ir de táxi até a fronteira e, após resolver os trâmites legais, pegar outro táxi até o destino desejado.

Por sorte, encontramos um motorista que nos cobrou 15 dinares tunisianos (R$ 30), dez abaixo do que um outro havia oferecido antes. De quebra, nosso taxista ainda era simpático e falou, com um bom francês, sobre vários temas atuais, da guerra na Ucrânia à política nacional, passando, obviamente, sobre futebol brasileiro.

Uma dica de ouro entre mochileiros é garantir, de alguma maneira, que os policiais da fronteira saibam que você é brasileiro. Isso abre sorrisos e, espera-se, portas. Por isso que a Pati usou sua camiseta verde e amarela neste momento.

No guichê tunisiano, o primeiro oficial que vimos estava com cara amarrada, e logo pensei que não teríamos uma boa recepção. Outro funcionário nos chamou e nos deu um papel para preenchermos. Quando a Pati perguntou para um terceiro sobre quais dados colocar, a resposta foi: aí são os do Neymar. Pronto, faltou o Bebeto, da Copa de 1994, estar ali para ninar nossa passagem fronteiriça. A partir de então foram comentários espirituosos, risos e perguntas se gostamos do país.

Com os passaportes carimbados com a saída, nos despedimos e seguimos a pé pela fronteira. Mas então um oficial nos convocou e pediu para abrirmos as mochilas. Nada mais do que uma revista de rotina. E imagino que ele tenha ficado com dó de mexer em nossas mochilas quando as abrimos, com todo um quebra-cabeça de roupas e sacolas. Após mais alguns comentários espirituosos, fomos liberados.

Alguns metros à frente, outro oficial nos chamou. Mais comentários a respeito do Brasil e perguntas sobre o que achamos da Tunísia. Pati disse que havíamos gostado bastante —o que não é mentira— e eu, todo pimpão, logo disse que sim, a Tunísia era legal, mas com certeza a Argélia seria melhor. Obviamente que eu achava que já estávamos em terras vizinhas e quis fazer uma média. E obviamente que entendi errado e ele era o último tunisiano que teríamos contato. Ainda bem que não dependíamos dele para ter nossa saída liberada, pois minha gafe seria um grande empecilho.

Entrada na Argélia

Ainda atordoado com minha falta de reparo no uniforme do tunisiano, passamos a fronteira. E eis que um homem, dentro de um carro, nos abordou com um francês bem ruim e perguntou para onde íamos —logo achei que ofereceria carona. No fim, ele disse ser taxista e propôs nos levar até Annaba por 6.000 dinares argelinos (R$ 190). Inexperientes em fronteira, topamos. Mas ainda precisávamos passar pela polícia, para registrar nossa entrada.

O motorista saiu do carro e foi com a gente, querendo levar nossos passaportes. Não deixamos, já que são nossos documentos. Um pouco antes de entrarmos no prédio, outro homem nos abordou, e passamos direto. Assim que chegamos ao guichê, essa segunda pessoa passou para trás do balcão, e aí entendemos que ele era funcionário da alfândega. Aí sim demos nosso passaporte a ele. Assim que teve certeza que éramos brasileiros, disse jocosamente que ali não era o Qatar. Nossa resposta foi um sorriso amarelo.

Vários viajantes se aglomeravam no balcão, enquanto dois homens fardados preenchiam os dados. O que parecia ser o chefe deles veio até nós e começou, em um inglês tímido, os questionamentos. Para onde iríamos, no que trabalhamos, se nossos pais são brasileiros, se éramos cristãos.

Ele até estranhou quando perguntou se tínhamos amigos na Argélia e onde ficaríamos e, como resposta, dissemos que iríamos procurar hospedagem diretamente nas cidades —além de ser nossa conduta normalmente, são poucos os hotéis argelinos que estão nos aplicativos.

Entre as perguntas, alguns silêncios. Imaginamos que poucos viajantes do Brasil passam por ali, e por isso ele estava cauteloso, mesmo que tenhamos um visto de 30 dias dado pela embaixada em Brasília.

Enquanto ele nos dava um chá de cadeira, o taxista continuava perto do balcão e chamava vez ou outra o funcionário civil. Ele deve ter feito um lobby com o sujeito, porque nossos passaportes foram liberados antes do que os dos demais viajantes.

Tensão com o taxista

Com os documentos em mãos, o homem nos levou até seu carro, onde guardou nossas mochilas no porta-malas. Eu e Pati sentamos no banco de trás, e ele pediu para que eu fosse para a frente. Neste momento passei a duvidar de que ele realmente fosse taxista —seu carro não tinha nenhuma sinalização, mas era nosso primeiro contato com um veículo argelino.

Enquanto saíamos da zona de fronteira, ele, que tinha guardado nossos passaportes no console entre os dois bancos da frente, parou dois policiais que estavam conversando para perguntar sobre hotéis em Annaba. Um deles perguntou para a Pati qual era o endereço, e ela indicou um que estava no centro da cidade, região turística que teria outras opções.

Seguimos viagem e ele, assim que viu dois jovens, parou e nos disse, com seu pouco francês, que iria trocar nosso dinheiro. Crus, aceitamos, mesmo sem saber a cotação da moeda. Tínhamos ainda 80 dinares tunisianos, que rendeu 5.000 dinares argelinos. Logo, faltariam 1.000 para pagarmos a corrida.

Ele nos perguntou como faríamos com o dinheiro, e respondi que iríamos sacar no banco. Estão fechados, me disse. Como usamos caixa eletrônico para retirar dinheiro, não dei bola. O homem, então, nos perguntou como pagaríamos o hotel, se o banco estava fechado. Falei que daríamos um jeito, já que cartões de débito/crédito servem para isso. Outra opção seria conversar com o gerente e explicar que teríamos a grana no próximo dia útil e, se fosse o caso, pediríamos emprestado para ele.

O motorista falou, então, que poderíamos pedir emprestados os 12.000 que deveríamos lhe pagar. Sim, leitor, também nos surpreendemos com isso. “Que 12.000? Você falou em 6.000.” “Sim, para cada um.” Putos, dissemos que esse não era o combinado. Relutantemente, ele falou em 5.000 por cabeça, e continuamos na tecla sobre o combinado inicial. Baixou o bom negociante no homem e ele falou em 3.000 por pessoa. O resultado seria 6.000 ao todo, como a oferta original, e aceitamos.

Durante o debate acalorado, pensei em falar “então tá, para o carro e vamos a pé!”. Eu ainda não sabia que Annaba estava a quase 100 km da fronteira.

Essa discussão, aliada ao francês ruim do homem, fez com que nossa viagem fosse em completo silêncio. Ele até tentava puxar assunto, mas não progredia. Tanto é que nem sabemos seu nome. Em um momento em que ele parou o carro, aproveitei para recuperar nossos passaportes.

No trajeto, um policial nos parou e pediu vários documentos do homem —mais tarde viríamos a descobrir que é costume apresentar uma grande papelada. Achei que seria necessário mostrar também nossos passaportes, e o deixei na mão. Quando ele viu, ficou puto e pediu novamente para que deixássemos com ele, para futuras blitze. Entregamos a contragosto.

Mais para a frente ele retomou o assunto financeiro, já que estava preocupado com seu pagamento. Repetimos o que faríamos e só aí ele entendeu que não precisávamos de um banco, e sim de um caixa eletrônico. Como por milagre, ele nos devolveu os passaportes. Sim, leitor, também entendemos que os documentos não precisavam mais ser reféns dele.

Mais próximo a Annaba, ele parou em um caixa eletrônico, desceu do carro com a Pati e falou para que eu ficasse ali. Obviamente que fui junto, já que em nenhum momento confiava nele. Ele era tão inoportuno que ficava ao lado, inclusive na hora de digitar a senha. Infelizmente não deu certo usar os nossos cartões do Wise e do Sicoob. A tensão aumentou.

Já em Annaba, uma rua com vários bancos, fizemos a via crucis dos caixas eletrônicos. A cada tentativa fracassada, mais nervosos todos ficávamos. Como estou escrevendo esse texto, você já sabe que deu certo no fim. Quando finalmente encontramos uma máquina compatível com a bandeira Visa (a quinta chance do dia), veio o desafio de entender a moeda local.

Na Argélia, fala-se em mil e milhão. Mas, ao contrário do Brasil, no país africano pula-se de 9.000 para 1 milhão. Quando encontramos um caixa compatível, a Pati solicitou o saque de 1.000 dinares e questionou o homem se esse valor era 1 milhão. Ele confirmou e o dinheiro veio. Eram 1.000 dinares mesmo  —o que precisava para pagar a corrida.

Ficamos putos com essa confusão, porque já era o segundo saque mensal do meu cartão e, a partir do terceiro, uma taxa é cobrada. Não poderíamos usar o da Pati porque ela não tinha dinheiro na conta, e a solução seria apelar para o Sicoob, mesmo com as taxas desfavoráveis. E queríamos aproveitar para ter dinheiro em mãos.

O homem, no entanto, nos impediu de usar o cartão do Sicoob. Ele deve ter pensado que, se tinha funcionado com um, por que trocar? E então tivemos que usar novamente a opção do Wise. Naquele momento, só queríamos sair de perto dele. Sacamos um valor mais alto e, como imaginávamos, uma taxa foi cobrada.

Saldada nossa dívida com ele, a ideia era pegar nossas coisas e sair em busca de uma hospedagem. Ele ofereceu nos levar para o hotel por 5.000 dinares —a cara de pau não tem limites. Não topamos e pedimos nossas mochilas. O homem, então, disse que nos levaria de graça e, quando falamos que não sabíamos onde nos hospedaríamos, ele disse que havia informado a polícia, naquela conversa, que ficaríamos no local indicado pela Pati.

Extremamente nervosos com a situação, decidimos ir até o hotel para assim termos acesso a nossas coisas e também para sabermos qual seria o valor do quarto. Ele nos levou ao Majestic —quem é de Floripa sabe o tamanho da brincadeira— e ainda entrou junto, falando que queríamos um quarto. Esse foi um dos vários momentos em que pensei em começar uma briga física com ele e, desta vez, não geraria um acidente de trânsito.

De acordo com o recepcionista, o quarto era 9.000 dinares (R$ 360) —apesar de um bom hotel, não era tão caro quanto o de Floripa. Ainda não sabíamos a cotação mas, se uma corrida de táxi de quase duas horas custara 6.000 dinares, o quarto estaria fora do nosso orçamento. Agradecemos e partimos. E o homem ficou na calçada, nos chamando. Após tanto tempo, voltamos a sorrir, mas ainda nervosos com a situação.

Muitas coisas passavam por nossas cabeças. Poderíamos ter algum problema com o governo? Depois, descobrimos que quem hospeda um estrangeiro deve informar a polícia, seja hotel, AirBnb ou couchsurfing. Não teria sido uma conversa informal, do homem com um policial, que faria a gente ser obrigado a se hospedar no local indicado.

Havia outras opções na fronteira? Não reparamos, porque estávamos focados nele. Mas sempre se dá um jeito. Um policial poderia nos indicar o que fazer, assim como um viajante ofereceria uma carona.

De qualquer forma, aprendemos que, antes de cruzar a fronteira, é bom ter dinheiro em espécie, principalmente euro, e devemos também pesquisar melhor quais as próximas cidades (e baixar os mapas no celular), para ter alternativas na hora de percorrer as distâncias. E nunca aceitar a primeira oferta, principalmente de um “taxista”.

Devido às situações relatadas neste post, não temos fotos na fronteira

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