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Como é viajar pelo Saara Ocidental, um não país


Em nossa jornada pela África, não poderíamos deixar de fora o Saara Ocidental, um não país. Oi?

Há territórios que não são reconhecidos pela ONU (Organizações das Nações Unidas), como é o caso desse pedacinho no oeste da África, ao sul de Marrocos –Kosovo e Taiwan são outros exemplos. De acordo com a entidade, um Território Não-Autônomo é uma região “cujo povo ainda não atingiu uma medida completa de autogoverno”.

Como falamos aqui, o Saara Ocidental fica ao sul de Marrocos, que o reivindica como parte de seu país. A Frente Polisário requer a separação oficial do local, ocupado até 1975 pelos espanhóis.

Em Laayoune, é possível ver o deserto ao lado dos prédios

Naquele ano, Madri cedeu o controle para uma administração conjunta entre Marrocos e Mauritânia, que entraram em guerra. O conflito encerrou com um cessar-fogo em 1991, segundo o qual Rabat é responsável por dois terços do território, a oeste, e o restante, no leste, compõe a República Árabe Saaraui Democrática (RASD), conforme proclamado pela Frente Polisário e que é separada por um muro.

Para entrar no Saara Ocidental, não tem fronteira nem marcação na estrada. É como se estivéssemos viajando por Marrocos. Mas, um pouco antes de chegar a Laayoune/El Aiune, a maior cidade e considerada a capital desse não país, o ônibus parou numa barreira policial, um militar entrou no veículo e pediu nossos passaportes, além de perguntar onde ficaríamos e para onde pretendíamos ir. Cerca de dez minutos depois, ele nos devolveu, mas sem carimbos –símbolo de passagem de fronteira.


Informações práticas*:
  • Média preço café da manhã: 31 dirham (R$ 16,30)
  • Média preço almoço: 35 dirham (R$ 18,50)
  • Média preço jantar: 24 dirham (R$ 16,70)
  • Média preço de hospedagem: 225 dirham (R$ 118,60)
  • Deslocamentos: ônibus
  • Visto: não é necessário para brasileiros, pois o carimbo na entrada de Marrocos dá direito a permanecer por 90 dias. Como eles consideram o Saara Ocidental como seu território, vale para lá também

* valores para dezembro de 2022 para duas pessoas


Laayoune

Como estávamos cansados após pegar um ônibus noturno, nos hospedamos no hotel San Mao Sahara, bem em frente à rodoviária. O quarto é amplo e tem até mesinha e cadeiras –custou 250 dirham (R$ 132). A região é afastada do centro de Laayoune e há poucas opções gastronômicas e de lazer.

A situação é tão complicada que tomamos café da manhã na rodoviária e, quando saímos para procurar um local para almoçar, foi desolador ver apenas casas e oficinas mecânicas. Tiramos a tarde para trabalhar no hotel e descansar da noite maldormida.

Na manhã seguinte, resolvemos começar o dia num pequeno café ao lado do hotel, junto com os moradores. O local tinha uma varanda cheia de mesas, mas eles montaram uma ao relento, com uma parede nos separando dos frequentadores. Imaginamos que era por causa da presença da Pati, enquanto no ambiente coberto estavam apenas homens.

Iríamos novamente pegar um ônibus noturno, então aproveitamos para fazer um tour maior pelo centro de Laayoune. Guiados pelo Google Maps, buscamos praças ou parques, bons locais para ver o cotidiano local.

No caminho, passamos pela Catedral de São Francisco de Assis, que estava fechada –entendemos, pela placa no local, que só abre durante as missas, aos fins de semana.

Não muito longe dali está a praça El Michouar-Laayoune, um grande espaço concretado. Esperançosos de encontrar um local arborizado, rumamos para a praça Oum Saad. Infelizmente, estava toda cercada de tapumes e em reforma. A previsão é que seja mais um ambiente concretado. Já sem esperança, passamos algum tempo num café modernoso ali perto, o Hashtag Coffee, aproveitando a internet e a cafeína.

Praça El Michouar-Laayoune, a principal da cidade

A região com mais opções gastronômicas fica perto, e almoçamos num restaurante pequeno, mas com menu em inglês. O farto prato (1/4 de frango, arroz e maionese brasileira) custou 35 dirham (R$ 18,45). Para descansar, achamos uma pracinha perto. Como era de se esperar, toda concretada. Com o sol ainda forte, voltamos ao café modernoso.

Na hora de retornar ao hotel, onde havíamos deixado nossas mochilas, descobrimos que havia um parque bem espaçoso, com muitas árvores e crianças brincando, acompanhadas de suas mães, e alguns poucos pais –deviam estar lotando os cafés, enquanto as esposas cuidavam das crias. E pior: estava atrás da primeira praça por onde passamos. Poderíamos ter aproveitado os bancos e a grama para descansar, e ter memórias melhores de Laayoune. Fiquei bastante irritado pela descoberta tardia.

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Dakhla

Mais ao sul do Saara Ocidental está Dakhla, uma cidade relativamente grande que ocupa uma península. Para chegar lá, pegamos um ônibus noturno, que vinha de Marrocos. Ao nosso lado estavam alguns homens que ficaram conversando como se não houvesse amanhã e, quando deu 0h20, fomos obrigados a pedir silêncio, após inúmeros pigarros e encaradas. Só surtiu efeito o pedido verbalizado.

O ônibus chegou a um grande prédio de Dakhla às 6h, quando todos desceram. Perguntamos para um passageiro se era o ponto final, e ele confirmou. Após pegarmos nossas mochilas e nos acomodarmos numa sala escura, vimos o veículo partindo. Descobrimos, então, que estávamos na transportadora da empresa. Esperamos 1 hora ali antes de procurarmos um café aberto e decidirmos onde nos hospedaríamos.

A cidade tem muitos hotéis, dos mais baratos, com banheiro coletivo, a opções internacionais e resorts, mais afastados do centro. Para nossa surpresa, vimos algumas pessoas praticando corrida, esporte não muito popular no norte da África. Avistamos, inclusive, uma mulher de shorts fazendo exercício.

A nossa escolha de hospedagem, o hotel Soukina, era modesto, barato (200 dirham/R$ 105) e bem no centro da cidade. Deixamos nossas bagagens na recepção e saímos para conhecer a região, mas a garoa fina nos impossibilitou de ficar muito tempo ao ar livre. A igreja del Carmen, ali perto, estava fechada, e a praça em frente era malcuidada, com muito lixo na grama e em sua grande fonte.

A praça em frente à igreja del Carmen

Durante nossa caminhada, buscamos um local com bebida alcoólica para vermos o jogo entre Brasil e Croácia pelas oitavas de final da Copa do Mundo. Nos falaram que hotéis internacionais costumam ser uma boa opção, mas não foi isso que aconteceu. Dentre todos os lugares que tentamos, apenas o restaurante Bahia tinha TV e cerveja, e vimos nossa seleção perder nos pênaltis por 175 dirham (R$ 89).

Quando saímos do restaurante a garoa tinha dado vez ao sol, e a orla estava cheia de famílias e brinquedos infláveis. Conseguimos até ver o continente africano do outro lado da baía –lembrando que Dakhla fica numa península. O mercado, com tendas de roupas e itens de higiene, estava fervilhando. Como estávamos com camisetas da seleção, algumas pessoas nos deram pêsames. Pois é, não foi desta vez.

Do outro lado da baía, o continente africano

Compramos nossa passagem de ônibus para o dia seguinte, que nos levaria diretamente a Nouadhibou, na Mauritânia. A empresa do Saara Ocidental tem uma parceria com uma companhia do país vizinho, o que facilita a vida de quem quer cruzar a fronteira. E, para nossa sorte, o local de partida do veículo ficava muito perto do nosso hotel. Falaremos mais sobre a travessia em breve.

Na manhã seguinte, voltamos ao mesmo local onde havíamos tomado nosso café da manhã. Se no dia anterior comêramos uma sopa típica da região (com café, ficou 35 dirham/R$ 18,50), agora provamos o msamen, uma espécie de crepe folhado, recheado com queijo (com café, saiu por 32 dirham/R$ 17).

A sopa que comemos no primeiro café da manhã em Dakhla

Costumes do Saara Ocidental

Esperávamos encontrar um forte sentimento de independência, assim como é na Catalunha em relação à Espanha. Vimos, no entanto, inúmeras bandeiras do Marrocos –ouso dizer que tinha mais ali do que no próprio Marrocos. Pelas nossas andanças, em nenhum momento nos deparamos com a bandeira do Saara Ocidental, e saí de lá sem uma camiseta apoiando a independência, como eu queria.

O que nos falaram é que o sentimento de autonomia é mais forte do outro lado do muro, que corta o território, onde está a República Árabe Saaraui Democrática e a Frente Polisário. Pelo que havíamos pesquisado, para chegar lá enfrentaríamos vários percalços e, como a região não tem muitos atrativos, optamos por ficar na parte ocupada pelos marroquinos.

Nascer do sol em Dakhla

Não vimos diferença de costumes ou mesmo de vestimentas entre os moradores do Saara Ocidental e de Marrocos, e mesmo a alimentação é comum entre os dois territórios. A não ser o msamen, o crepe folhado que falei acima, que não havíamos visto antes.

É forte a presença de policiais e Exército em Dakhla, e nosso hotel ficava muito perto de um hospital militar –há uma base da ONU no Saara Ocidental. Na cidade também vimos muitos turistas fazendo esportes, como corrida e ciclismo. Depois, descobrimos que o local é bem conhecido entre os praticante de kitesurf.

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2 respostas a “Como é viajar pelo Saara Ocidental, um não país”

  1. Avatar de Nina Rosa lima Medeiros
    Nina Rosa lima Medeiros

    Cada dia me encanto mais com as fotos e as descrições. Se, daqui de longe, fico deslumbrada com o que leio e vejo imagino vocês. Prossigam e continuem mandando notícias. Beijos.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Avatar de Luciana Nunes Chennoufi
    Luciana Nunes Chennoufi

    Estou ao lado de um marroquino lendo o texto, que coincidência para mim e que gostoso ler e saber um pouco mais. 😃

    Curtido por 1 pessoa

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