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Trânsito caótico e praias sujas deixam memória ruim da Guiné


Visitar a Guiné, infelizmente, não foi uma das nossas melhores experiências, até aqui, na África. Pesou para isso uma série de fatores e, imagino, nossa lembrança do país poderia ser melhor se uma ou outra coisa tivesse sido diferente.

Para entrar no país, nos aventuramos em uma moto no meio da floresta, vindos da Guiné-Bissau. Até aí tudo bem, é do jogo ter uma ou outra experiência mais ousada em uma viagem de longa duração. O que agravou o cansaço foi o trajeto entre Boké e Conacri.

Eu e Pati viajamos num six-places, um carro em que dois passageiros se apertam no banco ao lado do motorista e outros quatro ficam no de trás. Nos colocaram na frente, então passamos 5 horas nos espremendo toda vez que o piloto precisava trocar a marcha ou puxar o freio de mão.

O mau-humor se agravou quando chegamos à capital e, sob um sol escaldante e um calor infernal, passamos 2,5 horas em congestionamentos até o destino final. Percebemos que os gargalos são as rotatórias e os policiais que ali ficam. Quando viam dois brancos, logo paravam o carro, e o motorista precisava conversar. Em uma das vezes, um dos passageiros deu dinheiro para o oficial após vários minutos de conversa.

Como em Boké não havia internet no hotel em que nos hospedamos, mesmo que tenhamos desembolsado 350.000 francos guineanos (R$ 224), chegamos a Conacri sem uma hospedagem reservada. Cansados, nos guiamos pelas indicações do aplicativo iOverlander, onde viajantes compartilham informações de locais para ficar, embaixadas, restaurantes e postos de fiscalização.


Informações práticas*:
  • Média preço almoço: 75.000 francos guineanos (R$ 46,50)
  • Média preço jantar: 70.000 francos guineanos (R$ 44)
  • Média preço hospedagem: 510.000 francos guineanos (R$ 310)
  • Deslocamentos: six-places, tuktuk, carro, táxi, tuktuk
  • Visto: é necessário para brasileiros, e tiramos o nosso pela internet
  • Dica: o trânsito é caótico e vale pesquisar bem a região mais interessante para se hospedar para evitar deslocamentos desnecessários

* valores para janeiro de 2023 para duas pessoas


Após uma longa caminhada em busca de uma hospedagem gerenciada pela Igreja Católica e a frustração por eles cobrarem 25 euros (R$ 138,50) por pessoa, sem café da manhã e internet, nos dirigimos ao hotel Les Palmiers, perto dali.

A decepção não foi menor, já que a diária era de 510.000 francos guineanos (R$ 313), bem acima do nosso orçamento. Ao menos, tínhamos as comodidades que o endereço anterior não oferecia, além de uma verdejante área comum. Pesou também os muitos comentários, no app iOverlander, de que havia uma ligação direta do hotel com um funcionário da embaixada da Costa do Marfim.

Conacri é uma península, e muitas embaixadas se concentram no extremo sul. Há algumas vias principais na cidade, constantemente lotadas de motos, tuktuks e carros –muitos deles atuando como táxis compartilhados. Isso faz com que o som ambiente seja uma sinfonia desafinada de buzinas.

Aprendemos em Nouakchott, na Mauritânia, e em Dacar, no Senegal, que não se pode confiar nos endereços das embaixadas que constam no Google Maps. Assim, após uma pesquisa decente, traçamos uma rota de aonde ir.

A via-crúcis foi produtiva, já que falamos com todos os responsáveis e batemos o martelo sobre não ir pro Mali, fomos orientados a tentar o visto de Gana num país mais próximo, conseguimos o visto da Serra Leoa e descobrimos que, para entrar na Costa do Marfim, há uma enorme burocracia envolvendo fronteiras fechadas.

Ilhas de Los

Com nossos próximos passos encaminhados, aproveitamos a cidade. Mesmo sendo uma península, não é possível curtir as praias e o mar, já que há muita poluição. Nosso hotel era de frente pro oceano, e mesmo assim não ousamos pisar na areia, que tinham grandes montes de lixo. Assim, nos dirigimos às ilhas de Los.

As pirogas (barcos) partem do porto de Boulbinet, e o desafio começa ao enfrentar o trânsito até lá. Por sorte, ganhamos carona do dono do hotel, que tirou o dia para resolver problemas na região.

Saída do porto de Boulbinet

Em uma pesquisa na internet, vimos que o transporte ida e volta até Kassa custa cerca de 60.000 francos guineanos (R$ 36,50) por pessoa. No porto, um barqueiro nos abordou e quis 300.000 francos guineanos (R$ 182). Dissemos que o nosso orçamento era a metade e, após uma longa e dura negociação, ele topou.

O trajeto durou cerca de 40 minutos e, do porto até a praia, do outro lado da ilha, caminhamos mais uns 15 minutos. Para uma quarta-feira, o local tinha bastante gente. Depois, descobrimos que era a comemoração de um aniversário.

A praia é rochosa, formando piscinas naturais quando a maré está baixa. Em poucas horas o mar já tinha encoberto as pedras e tínhamos que constantemente afastar nossa canga da água. Mesmo que o local esteja do lado oposto a Conacri, as correntes levam muita sujeira para lá, como sacos plásticos e até uma ampola de seringa.

Praia rochosa na ilha de Kassa

De volta à cidade, num calor infernal, foi difícil retornar ao hotel. Andamos por cerca de 1 hora numa rua importante da região, que era constantemente interditada para veículos. No fim, pegamos um táxi compartilhado (4.000 francos guineanos/R$ 2,50) até um ponto e dali um tuktuk (2.500 francos guineanos/R$ 1,50).

Próximo ao porto está o Museu Nacional da Guiné. Estava no nosso roteiro ir lá, principalmente se não desse certo o passeio na ilha de Kassa. No fim, pelo horário que retornamos de lá, acabamos deixando o museu para uma próxima oportunidade.

Outra atração que também abrimos mão foi Fouta Djallon, uma região montanhosa no centro do país. Segundo relatos, como do Guilherme Canever, no livro “Destinos Invisíveis”, há inúmeras trilhas e atrativos naturais. Infelizmente, nosso período na capital consumiu muito da nossa paz de espírito e do nosso orçamento, e achamos que demandaria bastante ir até lá para depois seguir viagem para a Serra Leoa.

Caos em Conacri

O que nos marcou fortemente na capital guineana foi o trânsito caótico. Nosso hotel ficava numa importante via e, mesmo que estivéssemos na área comum, com um prédio e árvores e cerca de 30 metros entre a rua e a gente, escutávamos as buzinas no café da manhã.

Como há muita oferta de moto, tuktuk e táxi, os motoristas costumam buzinar para chamar a atenção de possíveis passageiros, ainda mais dois brancos com chances de terem muito dinheiro em mãos. Além disso, eles abordam as pessoas fazendo aquele som que, no Brasil, muitos homens usam para assediar mulheres –ou para chamar cavalos.

Em uma das nossas corridas de tuktuk, o motorista foi abordado por um policial e, pelo que pudemos entender, não tinha a documentação necessária. Ficamos com a impressão de que várias pessoas dirigem ilegalmente e, se paradas por um agente da lei, tentam negociar alguma saída.

Outro problema enfrentado em Conacri é o desrespeito ao pedestre. Com poucas calçadas, temos que andar na via, e motos e tuktuks aproveitam toda e qualquer oportunidade para ultrapassar os demais motoristas. Isso faz com que pessoas e veículos tentem refutar a lei da física sobre dois corpos não ocuparem o mesmo espaço ao mesmo tempo.

Como temos visto em outros países do oeste africano, como na Guiné-Bissau, o turismo não é muito desenvolvido, o que faz com que as hospedagens sejam caras. E, pelas nossas andanças em Conacri, não achamos opções baratas.

Vista do nosso hotel, de uma montanha de lixo na areia da praia

Além dos hotéis cobrarem um alto valor, nem sempre oferecem comodidades que turistas ocidentais estão acostumados. O local em que ficamos em Boké, por exemplo, não tinha Wi-Fi e ficou sem luz por algumas horas de manhã.

Por falar em internet, encontramos na capital apenas um café que a disponibilizava para os clientes, e olha que fomos a um restaurante com padrão bem ocidental, com preços mais altos e logomarca que lembrava o escudo do Capitão América. Realmente, andar por Conacri é um ato de heroísmo.

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