Assim como a fronteira entre Serra Leoa e Libéria, a da Costa do Marfim com Gana exige mais esforço físico, para atravessar uma longa ponte, do que paciência. Isso se você não tiver o azar de, na sua frente, estar um grande grupo de viajantes, com quase duas dezenas de adultos e crianças, tirando o visto na chegada. Aí só resta sentar e esperar.
Como estávamos em Grand-Bassam, cidade próxima a Abidjã, tivemos que dividir em dois trechos a viagem até a fronteira, após nossa anfitriã, Chloe, advertir que demoraria muito até encher um veículo que fizesse o percurso numa tacada só.
De fato, em apenas 10 minutos nossa van encheu e assim viajamos de Grand-Bassam a Aboisso. Tivemos as tradicionais paradas para descida e subida de passageiros, e levamos 1h40 para percorrer os 76 km que separam as duas cidades marfinenses. Pagamos 1.500 XOF (R$ 13) por pessoa.
Assim que nossa van parou na estação, um homem já pegou nossas mochilas e as levou para a van que partiria para Noé, a cidade na fronteira com Gana. Caímos no velho golpe da pessoa que quer ajudar e, no fim, cobra algo. No nosso caso, custou as poucas moedas que sobraram: 250 XOF (R$ 2).

Como a van era maior, esperamos mais tempo até encher. Em outras palavras, 30 minutos. Ficamos mais apertados neste trecho e, apesar de ser menor —60km—, levamos a mesma 1h40 do percurso anterior —também pagamos 1.500 XOF (R$ 13) por pessoa. E olha que as estradas marfinenses são bem boas, inclusive as mais próximas ao país vizinho.
Fronteira Costa do Marfim-Gana
Ao contrário de outras fronteiras, em apenas uma barreira tivemos que parar e mostrar nossos documentos. E, infelizmente, teve o triste pedido de propina. Os dois simpáticos oficiais até gastaram o vocabulário espanhol, mas eles estavam diantes de dois brasileiros muquiranas e caxias, e usamos o clássico “putz, já gastamos todo o dinheiro”.
No lado marfinense da fronteira, seguimos o tradicional rito de mostrar os comprovantes de vacinação contra febre amarela e Covid e receber o carimbo de saída. Desta vez, porém, o oficial colocou nossos dados em um computador, e não em um caderno, como tem sido comum em nossa viagem pela África.
Até estávamos reticentes com essa fronteira, já que, alguns dias antes, o governo deixou de cobrar o laissez-passer, um documento que nos deu muita dor de cabeça e no bolso.
Nesta divisa também fomos acompanhados por um homem que, apesar de nossas recusas, insistiu em nos “ajudar”, mostrando aonde tínhamos que ir. Se até um dos oficiais marfinenses ficou irritado com ele, imagine a gente.
Assim que saímos da Costa do Marfim, este sujeito nos ofereceu um táxi para cruzar a ponte. Mesmo sendo no início da tarde, com um sol a pino, preferimos caminhar 1 km. Como falado antes, somos muquiranas.
Do lado ganense, vimos muitos oficiais, sentados ou trabalhando. Na primeira parada, um agente pediu nossos comprovantes de vacinação e mediu nossas temperaturas. A minha deu alta, obviamente, já que havíamos caminhado num calor subsaariano. Após alguns instantes, em nova medição, já estava normal. Já pensou eu ser barrado na fronteira porque acharam que era Covid, e não calor?
Tivemos que preencher um pequeno formulário com nossos dados e esperar, já que ali estavam muitos africanos. Enquanto uns 3 oficiais trabalhavam, tentando organizar o fluxo, o dobro estava sentado em diferentes lugares, observando. Nisso, um agente nos conduz para outro setor, mas um superior nos manda esperar, já que havia um congestionamento de estrangeiros lá.
Após uns 20 minutos sentados na frente de todos, um homem, mais superior que o anterior, nos manda seguir para a seção de gringos. Isso significa que já estava vazia? Não. Pelo visto, ele não queria que os estrangeiros ficassem parados ali.
Lá, descobrimos o motivo de tanta demora. Um grande grupo de americanos, com quase 10 adultos e outras 10 crianças, de diferentes idades, estavam tentando tirar o visto na chegada. E nós, com nossos papéis em dia, tivemos que esperar.
Após uns minutos falando sobre nossa viagem pelo continente e contando alguns causos, como a vez em que andamos em 3 numa moto para cruzar a fronteira entre Guiné-Bissau e Guiné, fomos mandados de volta à seção original. Abriram uma exceção, e os agentes responsáveis pelos africanos cuidaram da nossa entrada no país. Ao todo, levamos 1h20 para resolver a burocracia de fronteira, sendo 50 minutos só no lado ganense.
Estrada em Gana
Já em Elubo, encontramos algo raro em divisas de países: caixas eletrônicos. Com dinheiro recém-sacado, fomos à estação das vans. De acordo com o guarda do banco, poderíamos ir de ônibus para Acra, mas eles só sairíam de noite.
Como era início da tarde, optamos por van mesmo, para chegar no mesmo dia. E nosso veículo não deixava muito a desejar se compararmos com um ônibus, já que tinha ar-condicionado e até carregador USB. Pagamos 165 cedis (R$ 73,50) por assento e outros 10 cedis (R$ 4,50) por mochila.

Esta foi a primeira vez que fez sentido pagarmos pela bagagem, uma vez que tinha muita mala e caixa, e um assento foi destinado para vários itens. Sem falar que o corredor também ficou entulhado de coisas. Cada vez que parava, era necessário desmontar o tetris das tralhas.
Ao contrário das estradas marfinenses, as ganenses estão em péssima qualidade, o que nos fez percorrer os 353 km entre a fronteira e a capital em 8 horas. E pensar que, no Brasil, levávamos esse tempo para dirigir o dobro, entre São Paulo e Florianópolis.















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