Se levamos três longos dias para viajar entre as capitais do Camarões e do Congo, foram necessárias apenas poucas horas para ir da principal cidade congolesa para a do vizinho, a República Democrática do Congo. Afinal de contas, só é preciso cruzar um rio. Mas isso não quer dizer que a travessia não tenha burocracia e estresse.
Enquanto não há informações na internet sobre a rota Yaoundé-Brazzaville, encontramos relatos de gente que cruzou o rio Congo e foi de Brazzaville a Kinshasa. O problema é que todos transbordavam medo, envolvendo propinas e atitudes suspeitas dos funcionários.
Como é preciso cruzar um rio, para ir de um país a outro, acreditávamos que teria um ferry estatal, assim como em Rosso, na borda entre Mauritânia e Senegal. Seguimos a lógica que, em uma fronteira terrestre, você consegue ir a pé, não importa a distância. No caso de um rio, haveria uma forma gratuita, ou ao menos financiada pelo governo. Ledo engano.
Sem encontrar informações na internet, fomos ao porto de Brazzaville. Na portaria, dois funcionários sentados em cadeiras de plástico não nos respondiam quando perguntávamos sobre o ferry e, em dado momento, chamaram um sujeito aleatório para nos falar sobre as canoas rápidas.
De acordo com o homem, a travessia custaria 17.000 XAF (R$ 148,50) por pessoa, com todas as formalidades incluídas. Perguntamos o que seria isso, e ele respondeu que era o carimbo de saída. Prontamente dissemos que não damos dinheiro por carimbos, já que pagamos caro pelo visto.
Titubeando, o sujeito diminuiu o preço e falou que seriam 12.500 XAF (R$ 109) pela canoa rápida e outros 2.500 XAF (R$ 22) pelas tarifas do porto. Com esse valor em mente, fomos pesquisar mais sobre a travessia.
O funcionário do hotel em que ficamos, o Résidence Hôtelière de Moungali, nos indicou Santa (+242 06 959 7013), que poderia coordenar nossa travessia. Perguntamos sobre o ferry, e ele nos disse que não há essa opção, apenas as canoas rápidas. Um hóspede mais velho, que estava por perto, confirmou isso e ainda informou que o transporte público deixou de funcionar em 2017.
Santa, no fim das contas, é o famoso fixer, pessoa responsável por agilizar qualquer tipo de burocracia em viagens. Por 18.000 XAF (R$ 157,50) por pessoa, um homem nos buscaria na data combinada, nos levaria ao porto, compraria nossas passagens e, com nossos passaportes europeus (meu polonês e o italiano da Pati) em mãos, iria a todos os guichês necessários para carimbos. Isso do lado do Congo. Na vizinha RD Congo, seria preciso desembolsar mais 5.000 XAF (R$ 43,50) para que alguém fizesse o mesmo.
Se você é descendente de poloneses e quer saber se é possível ter sua cidadania reconhecida e o passaporte europeu, o Eduardo Joelson faz esse serviço burocrático. Em 2019 o Faraó o contratou e conseguiu rapidamente a documentação. Caso você o procure por meio da gente, ganhamos 5% de comissão.
Temerosos diante dos relatos sobre Kinshasa e o caos que era a travessia de fronteira, cedemos ao uso de um fixer. Nós, dois viajantes independentes, contrários a pagar por qualquer tipo de facilidade —leia-se: propina—, não ficamos felizes com isso.
A travessia do rio Congo
Optamos por cruzar a fronteira em um feriado, 1º de Maio, para ter menos muvuca no porto. Além de nós, dois hóspedes, naturais da RD Congo, também iriam usar o serviço do fixer. Na manhã e horários combinados, o sobrinho de Santa apareceu e nos levou de táxi. Ao contrário do combinado, porém, tivemos que pagar 1.000 XAF (R$ 8,50) pela corrida.
No porto, vários homens com coletes de carregadores cercaram o carro, mas logo se afastaram ao ver que estávamos já com um fixer. Ele nos levou à varanda de um prédio e lá ficamos, enquanto ele sumiu por cerca de 1 hora.
Como caiu um forte temporal durante esse período, não sabemos se a demora está dentro do prazo estipulado. Enquanto chovia, nenhum passageiro saiu do local.
Assim que parou o pé d’água, o fixer ressurgiu e nos guiou até outro lugar do porto, a cerca de 1 km dali. O caminho, repleto de grandes poças, mais parecia uma prova de aventura. Vimos até alguns táxis circulando ali.

Antes de entrar na área de embarque, dois funcionários encrencaram com as malas dos nossos colegas de grupo, que precisaram abrir, no chão, para mostrar o conteúdo.
De acordo com os relatos na internet, oficiais da alfândega exigem um relatório de tudo o que você transporta, como celular e notebook, e cobram, sem chance de negociar, tarifa de importação, mesmo que os itens sejam de uso pessoal.
Os funcionários que pediram para os nossos colegas abrirem as malas nos ignoraram. Assim, ficamos sem saber se os relatos de tarifa de importação são verdadeiros ou não.

Dentro da área de embarque, tivemos que esperar mais um tempo até conseguir entrar em uma lancha específica. Formamos uma fila, mas inúmeras pessoas que chegaram depois de nós passavam à nossa frente. Nosso fixer parecia atordoado, às vezes. No fim, levamos 2h10 entre chegar ao porto e entrar no barco.
Do lado da RD Congo
Cruzamos o rio Congo em menos de 15 minutos, em uma pequena lancha em que não havia espaço para todos se sentarem. Na verdade, era possível, sim, caso os primeiros passageiros se acomodassem nos bancos mais afastados, seguindo a lógica do “os últimos serão os primeiros”.
Assim, eu fui o felizardo a fingir que estava sentado —imagine aquele exercício de academia em que você, encostado na parede, mantém as pernas em 90°—, torcendo para que o barco chegasse o quanto antes ao destino.

Ao desembarcarmos no porto de Kinshasa, um homem nos esperava. Apresentamos nossos comprovantes de vacinação contra febre amarela a um funcionário, preenchemos nossos dados de saúde numa folha de papel e entregamos os passaportes para o fixer.
O sujeito retornou uma hora depois com os documentos devidamente carimbados e pediu desculpas pela demora, pois o sistema havia caído. Ao sair do porto, descobrimos que o fixer era funcionário do local, com direito a um escritório. Assim, percebemos que pagamos um extra para o homem fazer o trabalho dele.
Após toda essa experiência, que durou 3h10, avaliamos que não era necessário contratar um fixer para atravessar a fronteira entre Congo e RD Congo, e sim muita paciência —nada fora do normal para quem viaja por terra pela África.
Aparentemente, precisa ter também bastante serenidade diante da importunação de barqueiros e carregadores de bagagem, assim como sangue-frio para saber a qual pessoa se dirigir para conseguir os carimbos. Depois do caos na Terra que foi Rosso, entre Mauritânia e Senegal, vai ser difícil encontrarmos alguma situação pior. Pelo menos essa é a nossa grande esperança.















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