Uganda foi um país em que vivenciamos emoções contrastantes: de um lado, a tranquilidade de observar gorilas-das-montanhas em seu habitat e o suspense se conseguiríamos chegar até eles e, do outro, a impaciência de caminhar pela caótica capital, Kampala, e a ansiedade de sair logo de lá.
Informações práticas*:
- Média hospedagem: 137.700 xelins (R$ 185)
- Média almoço: 30.000 xelins (R$ 40,50)
- Média jantar: 32.000 xelins (R$ 44)
- Visto: é necessário para brasileiros, e um visto único para Ruanda, Uganda e Quênia, o EAC Visa, pode ser tirado na fronteira
- Moeda: xelim ugandês (R$ 1 = UGX743)
- Dica: o EAC Visa dá direito a circular pelos 3 países por 90 dias, então vale a pena organizar seu roteiro para não perder a oportunidade. Enquanto em Ruanda é possível tirar o documento na fronteira, nos outros 2 é preciso preencher um formulário online antes.
* valores para setembro de 2023 para duas pessoas
Antes de viajarmos para a África, tínhamos 3 grandes e caros desejos: fazer um passeio no deserto, um safári e a trilha para ver gorilas. Para a alegria do nosso orçamento, conseguimos espaçar bem os itens dessa lista e o primeiro foi no Marrocos, no início desta temporada, em dezembro, e o segundo, em dose dupla, fizemos na Namíbia e na África do Sul, em junho/julho.
Agora, no fim de setembro, foi a vez de meter a mão no bolso para ter essa experiência incrível de ver os gorilas-das-montanhas. Eles se concentram em duas áreas próximas, entre Uganda, Ruanda e RD Congo. Enquanto na tríplice fronteira fica a floresta Virunga, que abriga cerca de 600 primatas, na Floresta Impenetrável de Bwindi, em Uganda, estão outros 400 animais.
Há inúmeras empresas que organizam os trekkings para observar os gorilas, para diferentes tamanhos de agenda e de orçamento. Para escolher o que melhor se adequava à gente, levamos em conta alguns fatores.
O leste da RD Congo estava em conflito na época em que organizamos esse passeio gerando, inclusive, o fechamento momentâneo do Parque Nacional de Virunga. Sem falar que já tínhamos visitado o país antes e não pretendíamos gastar com mais um visto, mesmo sendo bem mais simples do aquele que tiramos para ir à capital Kinshasa, no oeste.
Em Ruanda, como há poucos animais e o governo quer preservá-los, a entrada do Parque Nacional Volcanoes custa US$ 1.500. Algumas agências de viagem até oferecem levar o turista de Kigali para ver os primatas do Uganda, já que a entrada no parque do país vizinho é menos da metade do preço.
A questão orçamentária pesou na nossa decisão e contratamos a Safari 2 Gorilla Tours. Como o passeio era mais barato se começássemos em Kabale, cidade perto de Bwindi e na fronteira com Ruanda, partimos direto para lá.
Com a permissão de entrar no parque (US$ 700) e o serviço de pegar e levar ao hotel, pagamos US$ 840 por pessoa, com um desconto de US$ 10 cada. Nas pesquisas por passeios de 1 dia, esse foi o único que cobrou menos de US$ 1.000.

Há opções de 3 dias, mas que normalmente saem da capital ugandesa e dedicam o primeiro e o último dias para transportar o viajante pela estrada. Apenas o segundo dia é realmente voltado aos gorilas.
Nas pesquisas que fizemos, a orientação é que a reserva com a agência seja feita com antecedência, já que há um limite dirário para permissões dos parques e, obviamente, a demanda vai depender se é baixa (abril/maio e setembro a novembro) ou alta (junho a agosto) temporada. Começamos as tratativas uns 50 dias antes e conseguimos nossas entradas para o fim de setembro.
Como foi a trilha para ver gorilas
No dia combinado, já vestidos com nosso look trilha —bota, calça, camiseta de manga comprida e casaco de chuva—, o motorista nos buscou às 5h30 e, após atravessarmos muita neblina na escuridão e um bom trecho sinuoso, chegamos ao parque às 7h.
Cerca de 30 minutos depois, vários turistas assistiram na sede a uma apresentação tradicional de mulheres da região e à palestra de um guia, que nos passou algumas orientações.
Devidamente separados em grupos de até 8 pessoas —no nosso, eram 2 casais, uma dupla de mãe e filha e um americano sozinho—, acompanhamos um guia e dois rangers, homens armados que vigiariam nossa caminhada e se atentariam a duas espécies que poderiam trazer problemas: elefantes e gorilas que não estão acostumados à presença humana.













Antes de partirmos, foi oferecido o serviço de carregadores, pessoas da região que levam sua bagagem e ajudam em momentos mais complicados da trilha. Esse serviço custaria US$ 20. Nós, mochileiros em tempo integral, corredores nas horas vagas, trilheiros esporádicos e mãos de vaca desde sempre, recusamos a oferta.
Nosso grupo foi, com cada turista em seu próprio carro, em comitiva até um certo ponto, onde descemos e seguimos a pé floresta adentro.
Estávamos receosos, já que agência e guias avisam a todo momento que a estimativa de duração da trilha varia entre 2 e 8 horas. Até tentamos, nas semanas anteriores, aumentar os treinos de corrida e de fortalecimento, mas sabe como é, né? A vida na estrada não está nem aí pros seus planos, principalmente os que envolvem exercício físico.
Pesou na nossa apreensão dois relatos de viajantes sobre os primatas. Enquanto Fábio Zanini, autor de “Pé na África”, andou muito tempo e ainda precisou mudar de família de gorilas, chegando a umas 4 horas de caminhada, Filipe Morato Gomes, do blog almadeviajante, precisou sair mais cedo porque o grupo de animais estava se locomovendo muito rápido, mas deu sorte e levou “apenas” 2 horas.
Com esse receio na cabeça, além do suor do esforço de subir e descer morros —estávamos na montanha, afinal de contas—, seguíamos ansiosamente nosso guia. Volta e meia ele falava ao telefone, se comunicando com os rangers, homens que acompanham as famílias de gorilas durante todo o dia. Como de noite os primatas não se locomovem, fica mais fácil saber onde eles estarão na manhã seguinte.
Eis que, ao longe, vemos um ponto preto se destacando no verde da floresta. Na sequência, ouvimos gritos, vindos dos rangers-babás. Sim, pessoa que nos lê, era um gorila! E não tinham se passado nem 30 minutos! Um misto de alegria e alívio dominou nosso despreparado corpo. Além de vontade de chegar mais perto dos primatas.
Próximos a eles, o guia nos deu as últimas instruções: hora de colocar as máscaras, não falar alto e não fazer movimentos bruscos diante dos bichos. Ficaríamos a cerca de 7 metros deles e por 1 hora. Os animais precisam comer suas folhas em paz, né?
A experiência de observar os gorilas de perto é sensacional. Principalmente os filhotes, que ficam brincando e brigando entre si como humaninhos. É difícil não querer abraçá-los ou levá-los na mochila.
Os adultos já são mais paradões, focados em saber onde está o melhor galho com boas folhas pra comer. Sem diferença nenhuma com humanos.
A grande estrela do passeio é o gorila macho que lidera o bando, o silverback —pelo nome, vocês podem imaginar que ele tem as costas prateadas. Eram 2 nessa família, e o mais velho e maior era o mais respeitado. E tinha bastante paciência para comer suas folhinhas.
O guia nos orientou durante toda essa 1 hora, nos indicando aonde ir para ter o melhor ângulo de visão e também tirar fotos. E ainda teve um momento de tensão, quando uma gorila veio em minha direção e passou rente por mim. Eu deveria estar perto de algum galho de folhas apetitosas.
Mesmo que 1 hora tenha 60 minutos, ela se passou rapidamente e tivemos que finalizar nosso momento com os primatas. O retorno também nos exigiu esforços, mas nada fora do comum. No fim, ganhamos um certificado com nossos nomes e fomos incentivados a deixarmos gorjeta para o guia e os rangers-babás.
Depois, o motorista nos levou de volta ao hotel e ainda conseguimos almoçar no hotel, algo que nem imaginávamos ser possível na nossa saída durante a madrugada.
A caótica Kampala
Kabale é uma típica cidade de fronteira, com poucas opções mais arrumadinhas de hospedagem e de restaurantes. Mas tivemos duas gratas surpresas lá. No primeiro quesito, ficamos no Riverside Resort Hotel Kabale (146.000 xelins/R$ 196), com um grande jardim e pratos gostosos e fartos, além de uma equipe muito hospitaleira. O problema ficou por conta das quedas de energia e, consequentemente, de internet.
Outro achado foi o Numba Cafe. Com bom Wi-Fi e algumas tomadas perto das muitas mesas, o lugar também oferece uma boa gama de bebidas e pratos diversificados.
De lá viajamos a Kampala de ônibus (35.000 xelins/R$ 49) e, por azar, sentamos na última fileira, onde ficamos em 6 passageiros. Para piorar a situação, muita gente no veículo não gostava de ventilação, e assim passamos muito calor nas quase oito horas até a capital.
Com cerca de 1,6 milhão de habitantes, a cidade tem algumas regiões caóticas, e foi num desses cantos que ficamos. E percebemos isso ao chegarmos, já que nos cerca de 1,5 km que caminhamos até o hotel tivemos que dividir calçadas com motos e ainda passamos por locais que nos lembraram as paulistanas 25 de Março e Santa Ifigênia. E esses endereços estão longe de nos trazer boas lembranças de São Paulo.






Ficamos no Steric Hotel, um lugar que desrecomendamos. Situado dentro de uma galeria semelhante à Galeria do Rock ou a do Reggae —olha aí outras referências paulistanas—, precisamos subir pelas estreitas escadas até o 5º andar. O que o quarto (129.000 xelins/R$ 174) tem de grande tem de pouca tomada: apenas duas funcionavam, e tínhamos que escolher se ligávamos o ventilador ou o computador. Ao menos a internet era rápida e o sofá, confortável.
Como nossa impressão da cidade não foi nada positiva, nos restringimos a apenas um passeio histórico: o palácio do rei Buganda, o maior dos 5 reinos de Uganda —eles não têm poderes políticos. Atualmente, o prédio é usado apenas para encontros oficiais.
O edifício tem uma triste história, pois há câmaras que foram usadas para torturas opositores políticos durante uma década e na gestão de dois presidentes: Idi Amin e Milton Obote. O primeiro encomendou a obra para engenheiros israelenses, afirmando que o objetivo era armazenar armamento. No fim, enclausurou e matou milhares. Para sair das celas, era necessário passar uma espécie de fossa energizada, onde a pessoa seria eletrocutada.














Deixe um comentário