A Tanzânia estava no nosso imaginário havia muito tempo, principalmente por causa das praias paradisíacas de Zanzibar. Mas, se aproveitamos a calmaria das águas de azul-turquesa, sofremos com golpes e vendedores bem insistentes, e em vários cantos desse país do leste da África.
Tivemos uma entrada conturbada em solo tanzaniano, quando cruzamos a tranquila fronteira com o Maláui e nos encontramos sem dinheiro local —havia relatos de o único ATM da região não ser confiável e a taxa de câmbio era vergonhosamente desfavorável para nós.
Assim, nos vimos caminhando de noite por um povoado que margeia a rodovia, em meio a várias pessoas querendo nos levar de táxi a não importa onde ou querendo trocar dinheiro —nos lembrou até a fronteira caótica de Rosso, entre Mauritânia e Senegal. Por sorte, quando nosso nervosismo já estava bem alto, o cobrador do ônibus nos deixou pagar no destino final: Mbeya.
O ônibus que nunca saía
Lá, após uma noite reparadora, descobrimos na internet que havia vagas em um ônibus para Dar es Salaam às 10h e, por isso, fomos à rodoviária por volta das 8h30 para comprar os bilhetes e já esperar o embarque. Foi com essa inocência que começou nosso desafio do dia.
O funcionário da companhia rodoviária, sem olhar em nenhum sistema, informou que não tinha assentos, mesmo com nossa veemência em afirmar que havíamos visto o site antes de deixar o hotel. Com uma grande má vontade em trabalhar (nem falou sobre opções para o dia seguinte), ele nos indicou outra empresa.
Lá, um jovem nos disse que teria um ônibus às 11h30 e prontamente compramos. O que nos importava era chegar logo a Dar es Salaam e de lá partirmos para Zanzibar, para nosso tão merecido descanso.
Por volta das 11h, um homem com crachá e cheirando a álcool nos informou que o veículo estava atrasado e que sairia às 12h de outro endereço, e para lá partimos com um terceiro passageiro e o funcionário de outra empresa.
Com o trânsito conturbado da hora do almoço, chegamos ao local às 12h30, e o ônibus não tinha nem cara de que iria sair. Foi aí que descobrimos que estava previsto para partir às 16h e armamos um barraco, a ponto de pedir nosso dinheiro de volta. Desalentados, ficamos e aguardamos.
No horário avisado, o veículo não deu sinal de partir. Perguntamos e o funcionário disse que saíria às 17h. Deu o horário e novamente questionamos, o que ele respondeu que em até 45 minutos iríamos embora.
Às 18h, veio a verdade: só deixaríamos Mbeya quando o ônibus enchesse, o que aconteceu apenas às 19h. Pois é, ficamos desde as 8h30 em função desse transporte até Dar es Salaam.
Ao menos o funcionário nos falou que chegaria entre 4h e 5h da manhã, e logo traçamos um plano de ação para quando lá chegássemos, que envolvia usar a internet do hotel que já havíamos reservado para agilizar a hospedagem em Zanzibar e também comprar o bilhete do barco até a ilha.
O problema foi que o ônibus chegou bem além do previsto, e apenas às 10h30 entramos na maior cidade tanzaniana. Cansados e frustrados, jogamos a toalha e resolvemos ficar e descansar para partir só no dia seguinte.
Não sem antes negociar com um motorista de tuktuk que queria nos cobrar inflacionados 35.000 xelins (R$ 61,50) para nos levar por 10 km ao hotel, mas aceitou 10.000 xelins (R$ 20,50) —seguimos a lógica de pagar 1.000 xelins (R$ 2) por km.
Instalados e alimentados, fomos comprar nossos bilhetes de ferry para Zanzibar. Ainda bem que já havíamos lido que é estressante andar pela região do embarque/desembarque dos barcos, pois é bem verdade. É igual quando se chega a uma estação de veículos terrestres, porque uma horda de homens te aborda querendo te enganar ou vender bilhetes, ou as duas coisas ao mesmo tempo.
Golpe em Zanzibar
Após tanto estresse no continente, achávamos que Zanzibar seria só tranquilidade e descanso. A inocência do viajante é bonita, né? Quando desembarcamos na ilha, fomos atrás do dala dala, como é chamado o transporte público local (isso pode ser um micro-ônibus ou até um caminhão em que vão muitas pessoas apertadas na caçamba coberta). Havíamos lido que era preciso pegar dois: um para sair de Stone Town, o centro de Zanzibar, e outro até Paje, onde estava nossa hospedagem.
No caminho para o primeiro, com informações dadas por um frentista de posto em um misto de suaíli e gestos, um cara colou na gente. Dissemos que já sabíamos para onde ir, mas não adiantou —sempre fica a dúvida se a pessoa só quer ser simpática ou está tentando ganhar algo. Chegando à concentração de ônibus, já entramos em um que o cobrador (de boné) sinalizou que iria para Kwerekwe, onde pegaríamos o segundo dala dala.
O que havia colado em nós gesticulou para outro que entrou atrás ao mesmo tempo em que o de boné saiu. Perguntamos o preço, e ele falou: 2.500 xelins tanzanianos (R$ 5) por pessoa. Um passageiro riu, nós ficamos putos, tentamos argumentar, mas queríamos mesmo era nos livrar dele.
O de boné voltou nesse meio-tempo, enquanto o que nos cobrou falava, com nossos 10.000 xelins (R$ 20,50) em mãos, “hakuna matata, rafiki” (sem problemas, amigo), cuidado com as mochilas, tem a polícia etc., e a Pati começou a cobrar o troco.
Em meio à enrolação, ela pediu para o de boné dar os 5.000 xelins (R$ 10) de troco. Ele entregou para o que falava conosco, que nos passou o dinheiro e foi embora. Sim, caímos na ladainha dele. Relatando agora, parece tudo muito fácil, mas todos esses detalhes demoram a ser processados enquanto os fatos se desenrolam. Depois descobrimos que o preço justo seria algo em torno de 500 xelins (R$ 1). Um misto de raiva e de frustração nos dominou.
Na hora de pegar o segundo transporte —o caminhãozinho com carroceria coberta em que vão quantos couberem espremidos—, já estávamos mais atentos. Quem nos colocou no dala dala falou em 3.000 xelins (R$ 6) por pessoa, mas vimos passageiros pagando 2.000 xelins (R$ 4) e havia uma tabela que trazia o valor de 2.100 xelins (R$ 4,30). Demos 5.000 xelins (R$ 10) e ficou por isso mesmo. Em pouco mais de uma hora, finalmente, chegamos à paradisíaca Paje.
Vendedores insistentes na praia
Agora vem a tranquilidade na areia da praia, certo? Olha só quem errou feio de novo! Ouvíramos falar, no episódio sobre a Tanzânia do podcast Mochileiros sem Pauta, dos fake maasai, pessoas que dizem pertencer a um povo do norte do país e vendem artesanatos para os turistas. A nossa surpresa foi a insistente abordagem.
A cada ida à praia, ganhávamos vários amigos e irmãos, tantas as vezes que chegavam com “hello, my friend” (olá, meu amigo) ou “hello, my brother” (olá, meu irmão). Descobrimos também que temos feições marcantes, já que muitos falavam que se lembravam da gente —ainda bem que o Faraó tirou os dreads antes de viajarmos pelo mundo, pois aí sim as abordagens seriam incontáveis.

Esses homens são simpáticos e chegam tanto solitariamente quanto em grupos de 2 ou 3. E não adianta dizer que não está interessado, pois eles tentam alternativas na conversa. Quando o estrangeiro é rude, perguntam por que não está feliz.
No fim, adotamos a estratégia de nem responder: assim que deitávamos na areia, já abríamos os livros e ignorávamos todos. Uma alternativa, mais cara, é se abrigar em um dos vários restaurantes à beira da areia, mas com preços bem salgados. Lá, os fake maasai não entram.














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