Assim como “O Rei Leão” criou no mundo –ou ao menos nos millenials– um imaginário das savanas africanas, o filme “Madagascar” ajudou a formar uma ideia do que é esta ilha na costa leste do continente. São animações, é claro, mas quantos de nós havia ouvido falar do país antes de a turma de Marty, Alex, Melman e Gloria (e os pinguins) desembarcar aqui?
Assim como no filme, Madagascar é realmente muito verde. Atravessamos de Antananarivo, sua capital, até a costa leste, onde subimos um pouco mais para o norte. São muitas árvores e plantações (que lembram o que já vimos por aí de Sudeste Asiático) com variados tons de verde, por vezes parecendo mata virgem, algo raro de ver.
Tudo isso é margeado por belas praias de oceano azul, com alguns recantos que mais parecem o paraíso. Entre eles, a ilha de Sainte Marie, onde passamos cerca de dez dias, em uma experiência que, no fim, foi maravilhosa.
Informações práticas*:
- Média hospedagem: 190.000 ariaris (R$ 217,50)
- Média café da manhã: 30.000 ariaris (R$ 34,50)
- Média almoço: 42.000 ariaris (R$ 48,50)
- Média jantar: 60.500 ariaris (R$ 69,50)
- Visto: é necessário para brasileiros, e contamos aqui como conseguir
- Moeda: ariari malgaxe (R$ 1 = Ar873)
- Dica: há várias hospedagens que não estão em aplicativos, então vale a pena reservar algo para os primeiros dias e, lá, procurar alternativas. Encontramos duas opções mais baratas e mais bem localizadas do que a que reservamos via Booking em Sainte Marie.
* valores para outubro de 2023 para duas pessoas
Chegar à ilha de Sainte Marie
O que Sainte Marie guarda de tranquilidade ela tem de dificuldade para chegar –isso se você, como nós, não quiser pagar US$ 200 em passagem aérea. Nós mal pousamos em Antananarivo, vindo do Quênia, e já fomos atrás do transporte para lá, em um táxi que custa 70.000 ariaris malgaxe (R$ 77,50) para ir do aeroporto até o centro, em preço tabelado.
Primeiro, é preciso ir até Toamasina (também chamada de Tamatave), a 352 km da capital. Mas não se deixe enganar pela quilometragem, pois são ao menos 9 horas até lá. Por ser a segunda maior cidade e principal porto de Madagascar, há várias opções de empresas.
Nossa primeira opção era a Cotisse Transport, cuja reserva online só é feita por meio de Orange Money ou MVola, opções difíceis de acessar se você não está no país ou não passou por outro que adota essa forma de pagamento –o Orange Money está disponível em diversas nações africanas e é ligado a um chip de celular, então não havíamos adota ainda.
Fomos então em busca de uma empresa com vagas para sair naquele dia mesmo, e encontramos uma outra ali perto, que nos levou até a cidade costeira por 35.000 ariaris (R$ 39) por pessoa. A van era confortável, o que estragou foi a música alta durante toda a noite, pois saímos às 18h da capital. Para completar, nossa viagem acabou levando 12 horas, já que ficamos cerca de 3 horas parados na serra perto de Antananarivo, que parecia estar fechada naquele horário.
Toamasina consegue ser ainda mais caótica que a capital, com estreitas ruas onde carros, tuktuks (que levam de dois a quatro passageiros) e bicicletas modificadas para levar duas pessoas, além do motorista, dividem o espaço. As empresas que oferecem o transporte de barco até Sainte Marie têm também shuttle para levar até um dos dois pontos de partida, mas eles saem às 4h, e nós chegamos às 6h.
Fomos atrás, então, de um transporte até Soanierana Ivongo, pois de lá a viagem marítima deveria levar apenas 2 horas e, dado o histórico de enjoo do Faraó, preferimos esta opção a Mahambo, na qual o deslocamento seria de 4 horas. Conseguimos um táxi-brousse (vans compartilhadas e, obviamente, apertadas) por 20.000 ariaris (R$ 22) por pessoa.
Apenas 165 km separam Toamasina de Soanierana Ivongo, mas a viagem não leva menos do que 5 horas e meia –nós levamos 7 horas. Chegamos pouco depois das 14h e já fomos procurar o barco. As lanchas rápidas, porém, saem uma vez ao dia, na parte da manhã. Nossa sorte mudou –estávamos preocupados, pois tínhamos reserva para este dia– quando descobrimos que um barco de mercadorias poderia nos levar.

Negociamos o preço a 50.000 ariaris (R$ 55,50) por pessoa, com a promessa de que levaria 2 horas também. A inocência! Foram 4 horas para cruzar os 30 km até a ilha, em um mar para lá de agitado. Eram 20h30 quando finalmente conseguimos desembarcar, e um tuktuk com a nossa anfitriã nos aguardava. Finalmente iríamos desfrutar do paraíso! Ou não…
Finalmente, tranquilidade em Sainte Marie
Reservamos uma casa por 9 noites pelo Booking –ela também estava disponível pelo Airbnb–, propriedade de um francês, mas que era gerenciada por uma malgaxe. No local, ainda pudemos escolher em qual dos 2 quartos ficaríamos e ela preparou nosso farto jantar, e primeira refeição em 30 horas.
Foi na hora de pegar a senha do Wi-Fi que nosso drama ali começou: o modem estava com defeito e usaríamos o celular dela como roteador. E escolhemos ali pelo preço menor do que as hospedagens da região, pela proximidade da praia e, principalmente, por causa da internet, pois precisamos focar alguns projetos online.
Como ela nos disse que veria na segunda-feira a questão do modem, e era sábado, decidimos tirar o dia seguinte pra descansar. Mas já vimos que a situação do Wi-Fi daria problemas, pois o pacote dela acabou rapidamente.
Já cedo no domingo o francês nos contatou avisando que o plano de internet não era ilimitado, o que nos deixou, no mínimo, descontentes. Em nenhum momento ele nos avisara disso e, se soubéssemos antes, teríamos procurado outra acomodação. Além disso, nossas interações digitais têm exigido muita conexão, entre baixar e subir vídeos nas redes sociais, e ainda precisávamos gravar 2 podcasts, o que demandaria muito tempo de internet boa.
Na segunda-feira de manhã, após alguns momentos de estresse com a anfitriã, a quem procurávamos sempre que o celular/roteador dela desligava e precisávamos de conexão, o francês nos ligou e disse que deveríamos procurar outra hospedagem, já que ele não era uma organização filantrópica para ficar fornecendo internet pra gente. Extremamente nervosos, foi o que fizemos, e buscamos alternativas na região. Ainda ficamos aquele dia ali, mas, de tanta raiva, nem conseguimos adiantar nosso trabalho.
Para piorar, à noite, quando fomos pagar pelo período que ali ficamos, a malgaxe nos disse que não aceitavam cartão, apesar de terem nos falado por mensagem, no Booking, que poderíamos usar um. E ainda nos cobraram as taxas dos dias que não desfrutaríamos do lugar. No fim, o quarto saiu por 51,50 euros (R$ 280).
Na manhã seguinte, antes mesmo do café da manhã, pelo qual já havíamos pagado, fomos embora para o Villas de Vohilava, onde um bangalô de frente para o mar sai por 185.000 ariaris (R$ 214). O café da manhã (23.000 ariaris/R$ 25,50 por pessoa) não está incluso na diária, e, de tão farto, passamos a pedir apenas um com algum prato a mais nos dias seguintes.
A área comum, onde fica o restaurante e um deque, é bem agradável, o que facilita a vida de quem quer usar a internet, pois só ali conseguimos nos conectar. O Wi-Fi tem seus momentos de rapidez e outros tantos de lentidão, mas isso soubemos no momento em que a diretora, Kate, nos recepcionou e apresentou a hospedagem. Ela, inclusive, ao saber sobre nosso trabalho, propôs que fizéssemos uma parceria.
Passamos 3 noites no hotel, onde pudemos nadar no mar, aproveitamos a vista das águas cristalinas enquanto trabalhávamos e saboreamos bons pratos. Sem falar que nosso bangalô tinha uma rede, perfeita para cochilos ao som das ondas.
Quando procuramos hospedagens na região, para sair da casa do francês, reservamos para dali alguns dias o Chez Mirieille, já que ele estava sem vagas naquele momento. No fim, coincidiu de que o lugar em que ficamos nesse intervalo ter disponibilidade apenas para esse período.
Assim, partimos para a terceira hospedagem na ilha de Sainte Marie, onde novamente ficamos de frente pro mar, pagando ainda menos: 75.000 ariaris (R$ 87) pelo quarto. A internet também funcionava apenas na área comum, mas descobrimos que, no nosso banheiro, era possível se conectar e, dependendo do vento, também na escrivaninha.
E pensar que o francês nos falou que, caso quiséssemos Wi-Fi ilimitado, teríamos que ir para hotéis de 300 euros (R$ 1.585) a diária. Outra questão que também nos deixou bem descontentes com ele foi que a praia citada em sua apresentação nas plataformas não era tão perto e tinha um forte e desagradável cheiro devido às algas. Já nos outros lugares em que ficamos, o mar ficava à beira do quarto e sem odor algum. E por valores mais baixos.
O Chez Mirieille também tinha restaurante, mas optamos por ir a um local na via principal, onde pratos de frutos do mar custavam cerca de R$ 25. E também voltamos diariamente ao Villas de Vohilava para jantar, pois a comida ali era realmente deliciosa –e ainda podíamos pagar com cartão, algo nada comum na ilha.
Por falar nisso, Sainte Marie é uma ilha de 49 km de comprimento por 5 km de largura, com 16 mil habitantes. Nos falaram que é possível alugar uma moto por 40.000 ariaris (R$ 44,50) e desbravar as demais praias, mas acabamos não fazendo esse passeio. Outra opção de lazer é um tour para ver baleias, que também deixamos para outra oportunidade.







Como a chegada à ilha foi conturbada, decidimos programar nosso retorno a Antananarivo, reservando ou comprando antecipadamente os tíquetes. Há várias ofertas de barco + shuttle, e reservamos vários dias antes com a Cap Sainte Marie um desses combos. Qual não foi nossa surpresa/desespero ao chegar ao porto, às 4h30, e descobrir que o escritório deles estava fechado e não havia embarcação nenhuma. Enquanto isso, outros 2 barcos estavam organizando seus passageiros.
Conseguimos os últimos 2 lugares no Melissa Express, por 100.000 ariaris (R$ 116) por pessoa, e 1 hora e meia depois, estávamos entrando na van que nos levaria até Toamasina. Infelizmente, foi no mesmo estilo da vinda e passamos boa parte das próximas 6 horas desagradavelmente apertados.
E com a forte sensação de que nos passaram a perna, pois a empresa tinha também um ônibus no cais, aparentemente mais confortável e que chegou antes ao destino do que nosso veículo, que parava a todo instante para embarque e desembarque de passageiros.

Em Toamasina, esperamos algumas horas até nossa van, da qual já havíamos comprado as passagens via Orange Money, partir, pontualmente às 20h30. Ao menos o saguão da Cotisse era agradável. Pagamos pelo modelo Premium (50.000 ariaris/R$ 58 o assento), o que garantiu poltronas confortáveis, música baixa e Wi-Fi, melhor do que em todos os hotéis em que ficamos até então. E nossa jornada durou apenas 9 horas madrugada adentro.
A movimentada Tana
Não reservamos muitos dias para Antananarivo, cujo apelido é Tana, pois a capital malgaxe não demonstrava oferecer muitos atrativos. De fato, o interior do país guarda passeios mais empolgantes, mas isso não quer dizer que não tenha nada para fazer na cidade de 1,6 milhão de habitantes.
Um guia impresso em nosso hotel estima que a visita ao essencial leva em torno de 3 horas. A antiga Gare pode ser um ponto de partida, pois sua arquitetura realmente lembra as estações de trem europeias. Uma pena apenas que esteja desativada.
De lá, parte-se para a avenida da Independência, um largo boulevard margeado por prédios com térreo em arcos e que abriga a prefeitura. Durante nossa passagem, havia muitos militares, e não sabemos se isso é normal ou reflexo do período eleitoral.
A região abriga ainda o Instituto Cultural Francês, que normalmente é uma boa parada em países colonizados pela França –algo de bom tinha que sair desse período. Aliás, Madagascar conquistou sua independência em 1960.
Um pouco mais afastado dali, mas reunidos na mesma região, estão a Catedral Católica de Andohalo, o Palácio Andafiavaratra, que abrigou a monarquia local entre os séculos 17 e 19, e o Zoológico e Jardim Botânico Tsimbazaza, onde é possível ver os lêmures (alô, rei Julian), caso não tenha tempo, como nós, de ir até um dos seus habitats.


Algo que fica muito claro andando por Tana é a forte influência francesa. Há a gastronomia, é claro, com croissants e baguetes a torto e a direita, mas um detalhe que achamos muito interessante foi a presença dos carros Renault 4L. Até em Sainte Marie há locações deste veículo para explorar a ilha.
O 4L tem uma ligação com a África que descobrimos por meio de duas obras. Há um filme na Netflix (“4 Latas”) em que o carro é um dos personagens principais, e o livro “Nunca É Tarde” (que inclusive está na nossa lista de inspirações), que conta a jornada de um pai e um filho a bordo do carro pelo continente.
Outras recantos em Madagascar
Na nossa viagem de van entre a ilha de Sainte Marie e a capital, vimos alguns trechos bem bonitos de praia, com mais ondas do que presenciamos na ilha onde ficamos tanto tempo.
Uma das cidades por onde passamos, Foulpointe, nos pareceu oferecer uma boa infraestrutura, com muitos hotéis e bangalôs. Mais ao norte de Madagascar estão Nosy Iranja e Nosy Be, famosos destinos de europeus. Há inclusive aeroporto na região, para quem não tem tempo ou disposição para enfrentar longas horas de estrada.
Muita gente também se lembra de Madagascar pela alameda (ou avenida) dos Baobás, um trecho de estrada cercado por inúmeros exemplares dessa árvore gigantesca, muito comum na África. Por ficar a cerca de 700 km da capital, tivemos que deixar esse passeio para uma visita futura à ilha.















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