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No Uruguai, dirigimos pelo litoral e vimos que até Montevidéu tem ares de interior


A estreia da terceira temporada da nossa volta ao mundo, desta vez na América, não poderia ter sido melhor: o Uruguai é um país pequeno e acolhedor, com ares de interior. Uma boa adaptação ao novo estilo de viagem, em que rodaremos com o Teras, uma Pajero 1998, e com o Café, nosso pug de nove anos. Para melhorar, só se o peso uruguaio fosse mais favorável para nós, principalmente na hora em que precisamos deixar o carro na mecânica.

A primeira noite no Uruguai, após entrarmos por Chuí, na fronteira com o Brasil, foi em La Coronilla. Foi a estreia de dormirmos na barraca de teto, estacionados em um lugar de frente à praia, uma dica que pegamos no iOverlander, um aplicativo colaborativo voltado a quem viaja de carro, mas com boas informações a todo tipo de viajante, já que tem indicações de embaixadas/vistos e fronteiras mundo afora.


Informações práticas*:
  • Média hospedagem (nove noites em Montevidéu): US$ 49,50 (R$ 262,50)
  • Média alimentação: $U 774 (R$ 102)
  • Combustível: $U 3.645,50 (R$ 479,50)
  • Pedágio (5): $U 810 (R$ 107)
  • Visto: brasileiros não precisam de visto
  • Moeda: peso uruguaio (R$ 1 = $U 7,54)
  • Dica: Não passamos a noite em Punta del Este, mas a quantidade de cassinos e clubes no centro deram a impressão de que a região é festeira. A vizinha Punta Ballena pode ser uma alternativa a esse agito.

* valores para março/abril de 2026 para duas pessoas


Na sequência, fomos pela litorânea ruta 10 para Punta del Este, destino badalado e conhecido de brasileiros. Ela pareceu ser uma Balneário Camboriú uruguaia, com muitos prédios em sua orla e preços nada convidativos, e uma população residente pequena, não passando dos 20 mil habitantes —no verão, recebe até 400 mil pessoas.

A atração turística mais famosa da cidade é La Mano (ou O Homem Imergindo À Vida), uma escultura do chileno Mario Irarrázabal, na Praia Brava. Os cinco dedos gigantes saindo da areia foram construídos em seis dias, num evento voltado a obras de arte modernas ao ar livre, em 1982.

A cidade também é berço do chivito, um sanduíche com filé-mignon, bacon, presunto, ovo, alface e tomate, que se transformou num prato nacional. Dizem que ele é, na verdade, argentino e foi preparado a pedido de uma turista. De qualquer forma, é possível encontrar em vários cantos do país.

Mesmo que tenhamos pernoitado em Maldonado, a cidade vizinha com cerca de 100 mil habitantes, também num estacionamento em frente ao mar, não pudemos perder a chance de ver o pôr do sol na Casapueblo. O lugar é um museu e galeria construído por Carlos Páez Vilaró. Não entramos lá, pois o passeio dos uruguaios é ficar do lado de fora contemplando a natureza, normalmente acompanhado do mate.

Montevidéu, a pacata capital

Pretendíamos passar umas três noites em Montevidéu, mas o destino nos fez ficar nove, quando o Teras parou na entrada da cidade. No caminho, quebrou o parafuso central da polia virabrequim, que faz bateria e alternador funcionar. Conseguimos um guincho para nos levar ao centro, mas demos azar de que fosse no início da Semana do Turismo, um evento que une pontos facultativos (de segunda a quarta) com o feriado da Semana Santa (de quinta e sexta).

Chegamos na terça à noite, e na quarta à tarde descobrimos qual era o problema. Como não encontramos nenhum mecânico funcionando, guardamos o Teras num estacionamento à espera da segunda-feira. Por sorte, o funcionário do estabelecimento indicou um profissional na rua de trás, e ele conseguiu solucionar a situação em dois dias —eram dois desafios: tirar o parafuso quebrado e encontrar um compatível. Só não ficamos totalmente felizes porque a conta saiu 18.300 pesos uruguaios (US$ 446,50/R$ 2.419).

Em Montevidéu —a cidade em si tem 1,4 milhão de habitantes, mas a região metropolitana abriga 2,4 milhões de pessoas, cerca de 66% da população uruguaia— , ficamos hospedados bem perto da Praça da Independência, onde está o Teatro Solís e a Torre Ejecutiva, sede do governo nacional.

Lá também fica o monumento e mausoléu do José Artigas, militar que, no início do século 19, organizou milícias populares pela independência da Espanha, no território desde 1527. Além de soberania, ele defendia um governo laico e reformas sociais.

A região, sob o nome de Província Oriental, passou a ser governada pelos vizinhos argentinos, da então Províncias Unidas do Rio da Prata. Os portugueses aproveitaram o momento de instabilidade política e invadiram o território mais ao sul do Brasil, em 1811, passando a chamá-lo de Província Cisplatina.

Em 1825 foi iniciado o processo de independência da região, quando os “33 Orientais”, liderados por Juan Antonio Lavalleja, declararam que não faziam parte do Brasil —um país soberano havia três anos—, e sim das Províncias Unidas do Rio da Prata.

Iniciou-se, então, um conflito de três anos, chamado de Guerra do Brasil, pelos uruguaios, Guerra da Cisplatina, pelos brasileiros, e Guerra da Banda Oriental ou Guerra contra o Império do Brasil, pelos argentinos. No fim, em 1828, argentinos e brasileiros chegaram a um acordo e foi delimitado, então, o Uruguai.

De volta a Montevidéu, a praça tem de um lado a entrada da Cidade Velha, região histórica e muito charmosa, endereço de muitos restaurantes, cafés e do Mercado do Porto. Do outro, está a importante avenida 18 de Julho —nesta data, em 1830, foi jurada a Constituição do Uruguai—, via que nos lembrou a avenida Paulista, de São Paulo, mas muito mais pacata.

A cidade, fundada em 1726, abriga vários museus, passeio que adoramos. Por questões logísticas, deixamos de ir ao Museu Histórico Nacional Casa Rivera, mas visitamos o Museu Andes 1972 (U$ 295/R$ 39 a entrada), que conta a trágica história de um avião, com 45 pessoas a bordo, que viajava da capital uruguaia à chilena e caiu na Cordilheira dos Andes. Por incrível que pareça, 16 pessoas sobreviveram por 72 dias —uma delas era o filho do Vilaró, criador da Casapueblo, em Punta del Este.

O acidente aconteceu em meio à crise política e econômica que assolava a nação, governada por anos por Colorados (liberais e urbanos) e Blancos (conservadores e ruralistas). No ano seguinte, em 1973, foi instaurada uma ditadura, que durou 12 anos e que deixou em torno de 6.000 feridos e cerca de 200 desaparecidos. Desde 1985, sete homens foram eleitos presidentes, e até chegou ao poder um terceiro partido, o Frente Ampla, do conhecido Pepe Mujica.

O país, mesmo com um dos melhores IDHs da região, passa por um grande problema de desigualdade social. Em nossas andanças pela região do hotel, observamos muitos moradores de rua e ouvimos relatos de furtos a veículos. Como vivemos por muitos anos na região da Cracolândia, na capital paulista, já estávamos mais acostumados a esse problema urbano e prestávamos mais atenção em nossos pertences durante os passeios.

Despedida do Uruguai

Com o Teras finalmente consertado, pegamos novamente a estrada para o próximo país, a Argentina. Antes, passamos pela pequena Nova Helvécia, com seus 10,5 mil moradores, para conhecer um trecho da Rota do Queijo, iniciativa que une produtores da iguaria, assim como estabelecimentos que a vendem e hospedagens.

Na sequência, passamos a noite em Colônia do Sacramento, de 26 mil habitantes, na outra margem do Rio da Prata, bem em frente a Buenos Aires. Percebe-se, pelo Bairro Histórico, como os portugueses tiveram influência no local, já que eles fundaram a cidade em 1680.

Hoje em dia, há muitos restaurantes e cafés por ali, cheios de turistas. Como uma balsa liga os dois países, é comum encontrar quem faça um bate e volta no vizinho. Nós aproveitamos o modal para continuar nossa viagem em direção ao Ushuaia, na ponta sul do continente.

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