Se você já ouviu falar na Serra Leoa possivelmente foi devido ao filme “Diamante de Sangue”, no qual Leonardo DiCaprio interpreta um traficante de diamantes. O filme é pesado, o que pode fazer com que muita gente associe a nação africana a “algo ruim”. Visitar o país, no entanto, mostra que há muito mais joias do que em suas minas a céu aberto.
Visitar Freetown e as praias da península foi um alívio depois de tanto estresse em nossa passagem por Conacri, na Guiné —ainda que a capital tenha nos reservado suas doses de perrengue.
Informações práticas*:
- Média preço almoço: 158 leones (R$ 46)
- Média preço jantar: 190 leones (R$ 57)
- Média preço hospedagem: 420 leones (R$ 121)
- Deslocamentos: táxi compartilhado, tuktuk (chamado de kekê), moto
- Visto: é necessário para brasileiros, e conseguimos o nosso na embaixada em Conacri
- Moeda: leones (R$ 1 = 3,80 leones)
- Dica: negocie todos os deslocamentos! Invariavelmente vão cobrar a mais de turistas, então tente se informar do que é o preço justo. Isso vale tanto para os motoristas de kekê quanto de moto ou táxi.
* valores para janeiro de 2023
Nossa chegada teve a primeira surpresa negativa: apesar de termos feito a reserva pelo aplicativo Hoteis.com, não havia vaga no Ishmajoso Lodge, o que foi desesperador às 23h30 depois de um dia estressante para atravessar a fronteira, como já contamos aqui, e chegar até a hospedagem, longe do centro.
Conseguimos garantir com o gerente uma vaga em um outro hotel pelos mesmos 21 euros (R$ 118), cerca de 420 leones, a moeda local. Ele nos levou para o Mariam Hotel, na região da Lumley Beach, o que foi uma sorte, pois lá era muito mais bem localizado. Dormimos à 1h, mas a manhã seguinte já veio com a segunda surpresa negativa: por aquele preço, café da manhã só para um.
A Pati estava cansada e estressada, desceu até a recepção e implorou por um segundo café da manhã —frisando que a mulher responsável naquela hora nada tinha a ver com a treta. Saímos de lá e fomos procurar outro lugar pela região. Freetown é cara, e para conseguir comodidades que são padrão para nós, viajantes ocidentais, é preciso pagar caro.
Terminamos no Leisure Lodge, onde, depois de negociar muito, conseguimos um quarto por US$ 45 (R$ 255/855 leones) a noite, com banheiro, Wi-Fi e café da manhã pra dois. Na manhã seguinte, por pouco não rolou mais um estresse, pois o responsável por servir a refeição —que não participou da negociação— queria cobrar a segunda pessoa. Explicamos e conseguimos comer sem maiores problemas.
Na capital, visitamos o Santuário de Chimpanzés de Tacugama. Contamos mais aqui
Mas essa hospedagem não foi nossa última. Nos mudamos ainda para um dos melhores Couchsurfings —plataforma que conecta viajantes com pessoas que disponibilizam, gratuitamente, um canto para dormir, como sofá, cama ou quarto privativo— que já fizemos. Ficamos na casa da Romane, uma francesa casada com um serra-leonês, que divide o local com um britânico e um casal de irmãos libaneses/serra-leoneses.
No terreno havia a casa principal, onde eles moravam, e um anexo, com entrada individual, cozinha, banheiro e dois quartos. Ou seja, tínhamos uma casa só para nós. O único lado ruim era a falta de Wi-Fi, o que não é tão facilmente contornável na Serra Leoa, mas demos nosso jeitinho.
Tá, mas e as praias?
A nossa alegria foi descobrir que o mar tem balneabilidade, ao contrário de Conacri. Como a capital se desenvolveu próxima ao litoral, as praias era acessíveis com uma caminhada. Nós nos hospedamos na região da Lumley Beach, e em menos de 10 minutos estávamos na areia. E sozinhos, já que ali ficavam apenas pescadores.

Outra praia visitada foi a No. 2, a cerca de 20 km de onde nos hospedamos, facilmente percorrida com uma viagem de 30 minutos de kekê, a 70 leones (R$ 21). É cobrada uma taxa de entrada de 10 leones (R$ 3) por pessoa e, antes de pisar na areia, passamos por uma área com tendas de roupas e uma hospedagem.
Mais badalada, há quiosques e muitas mesas com guarda-sóis na areia. Chegamos às 14h de um sábado lá, e vários estrangeiros ocupavam essas mesas.
Ao sair, por volta das 17h, o ambiente já era outro. Muitos grupos de jovens locais haviam chegado e o som alto imperava, mostrando o início da balada. Isso facilitou nossa vida, pois conseguimos baratear a viagem ao negociar com os motoristas dos kekês, que voltariam vazios de lá.
Uma terceira praia que aproveitamos foi a de Bureh, bem ao sul, a quase 50 km de onde estávamos hospedados. A francesa que nos recebeu indicou o local e prontamente topamos visitar.

Há algumas hospedagens lá e optamos pelo Bureh Beach Surf Club, com quarto bem simples e banheiro coletivo a 200 leones (R$ 60). Conseguimos ainda um desconto, já que o chuveiro não funcionava e o banho foi de balde, diferentemente do prometido pelo gerente. Pagamos, então, 170 leones (R$ 51).
Apesar desse perrengue, a praia, linda, estava praticamente vazia, com um ou outro estrangeiro andando por ali. Sem falar que foi extremamente gostoso dormir e acordar ouvindo o som das ondas.
Restaurantes
A região da Lumley Beach é muito bem servida de restaurantes em sua orla, com vista para o mar. O preço, porém, é mais alto. A orla nos lembrou a Lagoa da Conceição, bairro caro de Florianópolis. Em média, os pratos ali custam entre 150 leones (R$ 45) e 200 leones (R$ 60).
Há endereços com serviço e estrutura melhores, assim como também há os que nem menu têm, e o garçom mostra fotos do Facebook —esse, inclusive, quis nos dar o balão cobrando 55 leones (R$ 16,50) a mais.

Na região do Couchsurfing, Aberdeen, encontramos um restaurante com clientes locais. Bem mais barato que os endereços da orla, o prato de arroz frito com 1/2 frango saiu por 75 leones (R$ 21). Como a comida era bastante apimentada, tivemos que gastar mais com bebidas, para tentar aplacar o fogo na boca.
No centro de Freetown, encontramos o Crown Bakery, de um libanês. A rua e a fachada do prédio não são nada convidativos, mas o interior é bastante refrigerada e os pratos são bem servidos.
Fomos duas vezes ao local para usar o Wi-Fi instável, mas também para tomar café de verdade, que não fosse o solúvel dado em tudo que é hotel. O croissant é delicioso, mas os preços, não —um espresso duplo custa 60 leones (R$ 18). Foi um dos poucos locais que pudemos pagar com cartão.
Outro endereço visitado foi o Oasis Juice Bar, anexo a um hotel. Com ambiente agradável, serve sucos gelados (25 leones/R$ 7,50) e fartos sanduíches (R$ 50 leones/R$ 15).
Dinheiro
Como vocês já puderam observar aqui, os leones são contados às dezenas, mas, se for olhar o Google, a cotação sempre traz milhares. Isso porque na metade de 2022 o país mudou a moeda para o novo leones, cortando três zeros. A transição foi absorvida pelos locais —diferentemente da Mauritânia, que alterou há quatro anos, mas ainda usa a contagem antiga.
Ainda assim, volta e meia cruzamos com a moeda antiga, seja na fala dos prestadores de serviço (restaurantes, hotéis, motoristas de kekê), seja em papel mesmo. Ela ainda é aceita, pois o governo não conseguiu imprimir o suficiente para suprir a demanda —em dezembro, inclusive, houve uma falta nos papéis novos.
Isso fazia com que todo saque nos desse moedas novinhas. O porém é que os caixas eletrônicos dificilmente forneciam quantias maiores do que 400 leones, e isso quando forneciam, pois em Aberdeen os dois mais próximos estavam sem dinheiro. Assim, teríamos que fazer três saques para pagar uma noite no Leisure Lodge, mas encontramos um banco que possibilitava a retirada de 1.200 leones.
Simpatia, estradas boas e história rica
Nossa primeira impressão do país, primeira mesmo porque começou já na fronteira, foi a simpatia do povo. Todos os três oficiais com quem conversamos foram muito receptivos, em especial a que carimbou nossos passaportes (a história está no texto sobre a fronteira).
Não fizemos muitas interações, até porque ficamos apenas uma semana no país, mas sempre nos sentimos acolhidos. As pessoas na rua dão informações mesmo quando não pedimos e foram raras as ocasiões em que pudemos reclamar do atendimento nos locais.
Outro destaque para o país são as condições das estradas, que são muito boas! Depois de passar pela Guiné-Bissau, onde precisávamos usar máscara devido à poeira da rodovia não asfaltada, pela Guiné, que intercalava asfalto com buracos, foi um alívio. Até pegamos pista dupla e pedágio, o que não tínhamos visto até então.
Por fim, descobrimos um pouco mais da história do país no Museu Nacional da Serra Leoa (50 leones/R$ 15), que fica ao lado da Cotton Tree, uma árvore da algodão que é um marco na cidade. O local reúne artefatos dos povos originários, chamados de sociedades secretas, que possuem muitas máscaras, vestimentas e instrumentos musicais cheios de significados.

Em outra sala, conta-se a história colonial e pós-colonial. A Serra Leoa como Estado foi fundada por ex-escravizados americanos libertados após lutarem do lado britânico na Guerra da Independência dos EUA. Eles foram enviados pela Coroa britânica para Freetown em 1792 e o marco zero da cidade foi justamente a Cotton Tree.
Em uma reunião de fotos históricas e materiais produzidos para apresentações escolares, há ainda destaques para figuras importantes, como Bai Bureh, que liderou uma revolução quando o poder vindo da Inglaterra se instalou e queria cobrar taxas dos locais.
Outro ponto interessante na história da Serra Leoa é Constance Cumming-Johns, estampada na nota de 20 leones, que no verso traz diversas mulheres com o escrito “educação para o empoderamento feminino”. Nascida em 1918, Constance foi a primeira mulher africana a participar de uma Câmara Municipal e a primeira mulher a ocupar o cargo de prefeita em Freetown.

O país, aliás, possui uma forte campanha contra a violência doméstica e contra a mulher, com outdoors espalhados tanto por Freetown quanto ao longo das estradas. Também se vê cartazes sobre gravidez indesejada e clínicas de planejamento familiar, que trabalham na questão de contraceptivos.


















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