Ao se falar em Cairo, 10 entre 10 pessoas, segundo números de nossa cabeça, pensam nas pirâmides de Gizé. Não tirando o mérito e a beleza da única das 7 maravilhas do mundo antigo que ainda está de pé, mas a capital do Egito ainda guarda muita memória da época dos faraós —eu falei faraó-óóó— e também cantos bem modernos.
Como grande parte dos nossos dias no país foi acompanhada da família da Pati, fechamos um pacote com uma agência de turismo para otimizar nosso tempo. Antes de eles chegarem, porém, ficamos alguns dias sozinhos em Cairo.
Nos hospedamos em um apartamento via Airbnb (US$ 40/R$ 211) em Maadi, um bairro com muitos restaurantes e cafés, bem mais pacato do que o agitado centro. Tivemos a sorte de termos ao nosso dispor, logo na esquina, o Molly’s Bakery, com ótimo café, deliciosos pães, sanduíches e doces e um atendimento de primeira, em que um dos garçons falava inglês fluentemente e ainda arranhava no espanhol.
Falando nisso, encontramos muitos egípcios que dominam o inglês e se expressam com facilidade em outros idiomas, reflexo da importância do turismo para a economia nacional. Nas grandes atrações, há hordas de vendedores tentando descobrir de onde você é, enquanto oferecem produtos em diferentes línguas.
Ainda em Maadi, aproveitamos o Lebanese Bakery para apreciar a culinária do país para onde provavelmente não iremos nesta primeira temporada, devido ao conflito na região envolvendo Israel e Palestina. Há ainda uma boa pizzaria, a Divino, com redondas saborosas.
Para não dizer que não visitamos o centro de Cairo, fizemos duas incursões gastronômicas, coincidindo no mesmo prato, o koshary. Tradicional no país, mistura arroz, macarrão, grão-de-bico, lentilha, molho de tomate e cebola caramelizada. No Abou Tarek, o prato vem bem servido, com direito a uma certa coreografia do garçom na finalização da montagem.
Para chegar ao centro, utilizamos o metrô, meio de transporte que havíamos visto e utilizado apenas em Argel neste 1 ano de viagem pela África. De diferente, há vagões dedicados para mulheres. Ao ver 2 homens em um deles, o Faraó entrou achando que seriam prioritários a elas, e não exclusivos. Quando uma passageira brigou com os jovens, entendemos que eles estavam errados e, na primeira parada, metade da nossa equipe se mudou de vagão. Os outros são mistos, mas com bem menos mulheres.

As primeiras pirâmides
As pirâmides de Gizé são as mais conhecidas e visitadas, mas os egípcios levantaram muita pedra antes de chegar à perfeição de lá. Incluímos no nosso passeio a ida à necrópole de Sakkara e a Memphis, onde estão as 3 primeiras pirâmides erguidas.
Em Sakkara, Imhotep levantou no século 27 o primeiro exemplar desse tipo de construção a mando do faraó Zoser, a pirâmide de degraus, cujo complexo replica a disposição interna do seu palácio. Eles acreditavam, antigamente, que poderiam aproveitar após a morte os mesmos benefícios de quando estavam vivos.








Já em Dahshur ergueram o segundo e o terceiro exemplares: a pirâmide curvada e a vermelha, respectivamente. A primeira tem esse nome porque, no início, começaram a levantar as paredes com ângulo de 75°, mas, depois de verem que ficaria muito alta, adaptaram a angulação para 45°, o que deu um aspecto arredondado.
Já a vermelha, como você pode imaginar, tem essa cor devido às pedras utilizadas —mas essa tonalidade só acontece em um período específico do ano. Esta foi a primeira perfeita a ser construída, inclusive com as faces em direção dos quatro pontos cardeais.
Além das pirâmides, o passeio incluiu uma ida à primeira das 14 capitais ao longo da história egípcia, Memphis. Lá é possível visitar o Museu Mit Rahina, que abriga as ruínas da cidade e várias estátuas antigas. A mais chamativa é a do faraó Ramsés 2º, com mais de 30 de metros —o prédio foi erguido em volta dela.
Agora sim, as pirâmides de Gizé
Faltam adjetivos para descrever as pirâmides de Gizé: estonteantes, magníficas, maravilhosas —não à toa são uma das sete maravilhas do mundo antigo.
A maior delas, Quéops —cujo nome no idioma original é Khufu—, perdeu o topo, mas não por isso é menos grandiosa. É nela em que é possível entrar na câmara mortuária. Quer dizer, no que talvez seja, mas provavelmente não é. Mesmo com tanta tecnologia hoje em dia, as construções egípcias ainda guardam muitos mistérios.
O principal indício de que esta não é de fato a câmara mortuária é o fato de não ter nada dentro. Nem um escrito, escultura ou tesouro (ainda que estes pudessem ter sido roubados, as escrituras ficariam). Por isso, continua-se a investigar e neste ano de 2023 um túnel foi descoberto. Quem sabe nos próximos anos não teremos novidades.
Ainda assim, entrar na pirâmide, uma maravilha do mundo antigo, vale o esforço pela curiosidade de ver como é a construção por dentro. Utiliza-se o claustrofóbico caminho dos obreiros. É uma subida por um túnel apertado, que depois fica amplo e depois fica apertado de novo. É uma sauna, mas entrar numa estrutura de 2.500 AEC não tem preço —de verdade.







Quéops era pai de Quéfren e avô de Miquerinos —a menor das pirâmides. E, ao contrário do que se pensa, elas ficam muito perto da cidade, como mostra a foto do início deste texto. Além das três grandes, há outras seis menores para as esposas e filhos deles.
Enquanto o filho e o neto fizeram várias esculturas de si, Quéops fez apenas uma, muito pequena, que está no Museu do Cairo —mas a gente já chega lá. As tumbas dos faraós e da realeza como um todo possuíam, além do sarcófago com o corpo, uma inscrição que funcionava como um passaporte e ao menos uma estátua. Isso porque, caso o corpo fosse roubado, o pássaro que leva as almas para a vida após a morte conseguisse reconhecer de quem se tratava aquela tumba.
Quanto ao Museu do Cairo, lá é possível ver diversos sarcófagos, múmias e esculturas de diferentes épocas. Incrivelmente, ainda sobrou bastante coisa após os europeus passarem por lá. Há dois detalhes interessantes sobre os sarcófagos que vale destacar.
Primeiro, o material denotava a riqueza do defunto. Do ouro, para os mais ricos, à madeira. Em segundo lugar, alguns —os mais ricos—, tinham sarcófagos como matrioshkas. Tutancâmon, inclusive, tinha o sarcófago externo feito de ouro maciço e o segundo de madeira folheada a ouro.
O tesouro do faraó do século 14, inclusive, pode ser visto no museu. Mas não pode tirar foto.







Os coptas e a citadela
Como falamos, em Cairo se vai do antigo para o moderno —ou o menos antigo. A capital egípcia abriga a cidade copta, que são os primeiros cristãos do país (e, por não terem se miscigenado, podem ser considerados descendentes dos faraós).
O local abriga igrejas como a Igreja Suspensa, feita sem fundação, e a caverna onde Jesus, ainda criança, e seus pais se esconderam —hoje há uma igreja no local. Na época, a cidade era de judeus. Falando neles, tem uma sinagoga que chegou a ser um templo católico, mas retornou aos judeus quando a dívida do dízimo com os árabes não foi cumprida.
Por fim, no alto de Cairo vê-se a citadela de Saladino, um governador que se tornou sultão do Egito e da Síria. Além da belíssima mesquita —construída para competir com a Hagia Sophia na Turquia—, há uma prisão e alguns outros prédios erguidos com prédios das pirâmides de Gizé. Isso porque, no século 12, as pirâmides não tinham o valor que têm hoje.
A mesquita abriga ainda um relógio dado de presente pela França, em troca de um obelisco de Luxor que hoje está na praça da Concórdia, na capital parisiense. O relógio, no entanto, só funcionou por três dias. Ao menos o lustre, que fez parte do presente, ainda está em funcionamento.
























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