Viajar com o nosso pug de 9 anos, o Café, para o Paraguai foi o processo mais desafiador e o mais simples ao mesmo tempo até agora na nossa viagem de carro pela América.
Em resumo, o que você precisa para obter o CVI (Certificado Veterinário Internacional) na Argentina tendo o Paraguai de trânsito e o Brasil como destino é: certificado de saúde emitido por um veterinário até 10 dias antes da solicitação (ver observação mais abaixo); certificado de desparasitação feita até 15 dias antes da solicitação; e vacina válida contra raiva.
O preço do certificado na Argentina varia conforme sua pressa, sendo 72 horas o mais barato ($2.829,81/R$ 10,50), mas é possível diminuir esse tempo para 24 horas ($26.859,89/R$ 100) ou para o mesmo dia ($50.889,97/R$ 190). Para ir ao Ushuaia e ao Chile, pagamos um pouco mais barato, mas houve um reajuste nesse meio-tempo.
Simples, né? Não em San Salvador de Jujuy, cidade mais próxima ao território chileno, onde decidimos parar por três dias para obter o CVI do Café.
A sucessão de entraves começa com a desparasitação. Ainda em Santiago, no Chile, pagamos (caro, cerca de 28,5 mil pesos chilenos, ou R$ 163,50) para uma veterinária emitir o certificado, mantendo o controle em dia. Isso porque, a depender do remédio, esse cuidado deve ser feito mês a mês, e não queremos a cada fronteira ter que dar mais uma medicação, fora do prazo. Isso foi em 17 de maio.
Avança para o dia 1º de junho, no Senasa (Serviço Nacional Sanitário e de Qualidade Agroalimentar, na sigla em espanhol) de San Salvador de Jujuy. Depois de termos passado pelo veterinário de lá para obter o certificado de saúde (30 mil pesos argentinos, ou R$ 110), fomos ao escritório do órgão, que fecha às 14h e cujo endereço do Google está errado (na primeira avaliação tem o correto).
A funcionária foi solícita, o que não diminuiu o impacto do que foi essa passagem. Começou com a data da viagem: dissemos que viajaríamos em 7 de junho, mas ela alertou que, para entrar no Brasil, o certificado de saúde precisava ter dez dias no máximo (ler observação mais abaixo). Respondemos que tudo bem, não tinha problema —afinal, estaríamos “jogando em casa”, então você está menos vulnerável na hora de resolver problemas.
Aí veio o segundo baque. A desparasitação precisava ser até 15 dias antes, ou seja, no máximo 18 de maio. A funcionária, no entanto, disse que poderíamos obter um novo certificado e levar a cópia no dia 4 de junho, quando o CVI ficaria pronto. Para finalizar, perguntou por qual fronteira sairíamos —neste caso, Clorinda, ao lado de Assunção, a capital paraguaia— e imprimiu o boleto para pagamento.
Esse foi o terceiro problema. Diferentemente de Río Gallegos, onde obtivemos o certificado para Ushuaia e Chile e pagamos no cartão de débito, em San Salvador de Jujuy o boleto deve ser quitado em locais específicos chamados Rapipago ou então com uma conta bancária argentina. Penamos para achar um estabelecimento, pois as opções do Google ou já estavam fechadas ou tinham deixado de funcionar por completo. No quinto endereço (marcado no mapa abaixo) deu certo.
E esperamos os três dias —com um certo receio de que o Senasa não abrisse no Corpus Christi, mas este não é um feriado oficial da Argentina. Ufa.
Não pense, porém, que o alívio durou muito. Ao chegar ao Senasa antes de cair na estrada, fomos atendidos por um outro funcionário —mais velho e mais lento. Ele começou a preencher os dados da desparasitação, pois pagamos por um novo certificado (20 mil pesos/R$ 73) com data de 18 de maio.
Mas lembra que falei no início do texto que são até 15 dias antes da solicitação do CVI. Pois bem. Agora esta data era a de 4 junho, e a aplicação precisava ser a partir de 21 de maio. Sim, a outra funcionária passou uma informação incorreta ou não concluiu o processo quando deveria. Insistimos e ele aceitou colocar 21 de maio no sistema, deixando claro que não se responsabilizaria por qualquer problema na fronteira.
Emitiu o certificado e perguntamos se estava do jeito que pedimos: Brasil com trânsito no Paraguai. Não estava. Até tem uma linha com “país de trânsito”, mas ali constava a fronteira que sairíamos, Clorinda. Isso porque, no formulário de solicitação que o funcionário do Senasa preenche, está apenas “trânsito” e eles entendem isso como fronteira. No entanto, com o documento emitido, o que aparece é “país de trânsito”.
Foi um vaivém para explicar isso para o sujeito que, a contragosto, colocou “Assunção – Paraguai” neste campo. Além disso, ele falou que não existia isso de trânsito por um país e que, uma vez no Paraguai, teríamos que pedir outro e esta seria a orientação dele caso tivéssemos sido atendidos por ele no momento da solicitação.
A questão é que, com o CVI em mãos (digitalização abaixo), vimos que: 1) nada é dito quanto à validade de dez dias do certificado de saúde para entrar no Brasil (já vamos detalhar esta questão); 2) além de ter escrito claramente “país de trânsito”, o certificado é válido para ingresso e retorno de todos os países do Mercosul. Ou seja, ele seria válido para o Paraguai, mais uma informação incorreta.

E não é apenas no CVI que consta esta informação. Ao buscar no site do Senasa os requisitos para obter a documentação para levar seu pet para o Brasil estes dois pontos estão bem claros.
Agora, sobre o certificado de saúde. No caso do CVI para o Chile, está textualmente dito que o animal foi submetido a um exame até dez dias antes da entrada no país —e este exame é comprovado pelo certificado de saúde. No caso do documento para o Brasil, não existe esta afirmação. Queremos acreditar que, por estar mais próxima ao Chile, a funcionária se confundiu.
Quanto detalhe e probleminha, né? Mas calma que não acabou. O CVI estava com todos os dados corretos. Faltaram, porém, as marcações de validação, que são alguns códigos de barra e código QR. Já tínhamos obtido um certificado argentino antes, mas não nos atentamos a isso —afinal, não era nossa função saber exatamente como o documento deve ser.
Eis que, depois de duas horas na estrada, o funcionário liga dizendo que precisamos voltar para pegar a versão correta. Poderíamos ter feito isso? Sim. Mas o custo de combustível e tempo não justificava. Insistimos e ganhamos uma versão digitalizada. Fomos com a cara, a coragem e uma impressão malfeita para a fronteira com o Paraguai.
Fronteira Argentina-Paraguai com cachorro
Com todos esses problemas no caminho até a fronteira, estávamos bem receosos se aceitariam a documentação. Tudo bem que o Brasil estava ali do lado e poderíamos percorrer alguns quilômetros para o sul, diretamente a ele, ou que Formosa, a maior cidade da região de fronteira, tinha um Senasa. Isso era o que nos dava certa tranquilidade.
Mas se gastamos muitas linhas para explicar toda a documentação, a fronteira não poderia ter sido mais simples. Já falamos aqui que todo o processo foi feito dentro do carro e contávamos que os relatos do iOverlander se confirmassem e que não teria checagem do veículo.
Pedindo para o Café não chamar a atenção —dono de pet é assim—, passamos incólumes pela imigração e revista sanitária. Sequer pararam para dar um confere dentro do carro.
Para retornar ao Brasil, outra tranquilidade. Até quase arriscamos uma visita a Foz do Iguaçu (PR), mas esse relato não poderemos dar aqui, pois a fila para cruzar a ponte nos desencorajou. Já na saída do Paraguai via Ponta Porã (MS), menos rigor ainda. Não há uma fronteira definida, o que significa sem grandes fiscalizações. Assim, após curtir uns dias em solo paraguaio, o Café pôde retornar à sua terra natal: Campo Grande.













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