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Sul do Chile abriga a panorâmica Carretera Austral, as montanhas de Torres del Paine e os grandes pinguins-reis


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A geografia peculiar do Chile e da Argentina nos fez cruzar a fronteira entre esses países algumas vezes para conseguirmos viajar de carro pela Patagônia e evitar a Cordilheira dos Andes. Isso nos proporcionou visitarmos, no lado argentino, as turísticas El Calafate e El Chaltén. Já na porção chilena, pudemos passear pelo famoso Parque Nacional Torres del Paine e vermos de perto pinguins-reis numa reserva natural. Sem falar que dirigimos por parte da panorâmica Carretera Austral.

Essa porção mais ao sul do Chile é a região de Magalhães e da Antártica Chilena, e as cidades mais conhecidas são Punta Arenas e Puerto Natales, onde ficamos para irmos a Torres del Paine. Mas, antes disso, aproveitamos que estávamos vindo do Ushuaia, que se denomina como o fim do mundo, para visitarmos a Reserva Natural Pingüino Rey (18 mil pesos chilenos/R$ 102,50).

O lugar é a única colônia continental onde é possível avistar os pinguins-reis, segunda maior espécie da ave, perdendo apenas para o pinguim-imperador, encontrado na Antártida. A reserva abre para o público de outubro a maio, e é necessário reservar com antecedência a visita, pois há limite de 15 pessoas por horário. Como não é permitido a entrada de animais de estimação, fomos em dois momentos, para que o Café, nosso pug, estivesse acompanhado no Teras, uma Pajero 1998, no estacionamento.

Essa pingüinera fica a cerca de 115 km de Porvenir, então passamos a noite em um abrigo público ali perto. Enquanto dormimos dentro do carro, aproveitamos a construção para preparar as refeições e comer. Há até um banheiro seco ali. Durante a noite, que ventou horrores, tivemos a companhia de outros dois veículos.

Estivemos na reserva no último dia de abril e avistamos muitos animais. Segundo o biólogo que guia a visitação, estavam por ali cerca de 120 aves, sendo 40 filhotes. Os pais costumam se dividir e, enquanto um fica com a cria, o outro passa uma semana no mar atrás de comida. Os adultos são pretos e brancos, com tons de laranja, e os mais jovens parecem kiwis, de tão marrons que são. A mudança de cor acontece na adolescência.

Lá, há uma estrutura básica para o visitante, com uma sala onde estão vários painéis informativos, venda de lembrancinhas e banheiro. O turista, sempre acompanhado de um guia, pode transitar por caminhos demarcados, subir em guaritas e parar nos abrigos de contemplação, mas estes podem ser inúteis caso as aves, nômades, tenham se estabelecido longe, como foi no nosso caso. Elas estavam numa ilha, e o Faraó teve a sorte de que duas cruzaram o riacho e se aproximaram dele e do seu grupo.

Foi uma experiência bem diferente da que tivemos cerca de dez dias antes, na pingüinera em Cabo Virgenes, na Argentina, quando descemos a costa pela Ruta 3. O lugar, gratuito, costuma receber as aves de outubro a abril, e encontramos menos de dez, as últimas da temporada.

As montanhas de Torres del Paine

Acabamos não indo para Punta Arenas, conhecida por ter uma zona franca, e seguimos direto para Puerto Natales. Lá, nos hospedamos em um Airbnb para que o Café tivesse onde ficar enquanto visitamos o Parque Nacional Torres del Paine, que não permite a entrada de animais de estimação.

Muita gente recomenda chegar cedo ao lugar para ver o nascer do sol e como as cores refletem em suas montanhas. Como a reserva fica a 80 km da cidade, nos organizamos para dirigir por duas horas até lá —como parte da estrada é de chão e há paradas para foto, acaba demorando. A aurora tardia no sul do continente, da qual tanto reclamamos, nos ajudou nessa empreitada, pois pudemos ver os raios solares despontarem no horizonte nos quilômetros finais, o que deixou muito mais bela nossa chegada.

O parque é cortado por estradas de rípio/cascalho e conta com muitos miradores, lugares no alto de morros aonde se chega por meio de trilhas. Não somos adeptos desse tipo de passeio, mas nos aventuramos no do Condor. Entra ida e volta, levamos cerca de uma hora e meia para percorrer 2,3 km. A subida foi muito mais pesada, principalmente porque no trecho final o vento estava forte. Mas valeu muito a pena a vista lá do alto.

De qualquer maneira, é possível contemplar a paisagem da janela do carro. Organizamos nosso roteiro para entrar por Serrano e sair por Lago Sarmiento, fazendo um circuito. Quando chegamos, o funcionário do parque indicou que o melhor é sempre comprar o ingresso antecipadamente (32.400 pesos chilenos/R$ 185), já que cartões estrangeiros nem sempre funcionam nas máquinas. O preço pode ser salgado, mas vale muito a pena observar os lagos e as montanhas de lá.

Puerto Natales é uma cidade bem agradável, com cerca de 24 mil habitantes. Demos o azar de chegar lá no último dia de abril, na véspera do feriado do Dia do Trabalhador, que caiu numa sexta-feira. Assim, toda a nossa estadia foi num fim de semana prolongado. Isso impactou em nosso passeio pelo lugar, mas, do pouco que vimos, pareceu ser uma boa parada na viagem pelo sul da América.

A Carretera Austral

Após alguns dias na Ruta 40 argentina, para visitarmos El Calafate e El Chaltén, voltamos ao Chile para dirigirmos por boa parte da famosa Carretera Austral. Esse trecho da Ruta 7 tem 1.240 km e corta duas regiões, a Los Lagos e a Aysén, ligando Puerto Montt, no norte, a Villa O’Higgins, no sul. Boa parte dela é asfaltada, mas tem muitos trechos ainda de rípio/cascalho, o que retarda a viagem de carro.

Como estávamos na vizinha Argentina, cruzamos a fronteira no Paso Rio Jeinimeni e, de Chile Chico, percorremos pouco mais de 100 km da Ruta 265 até Aldana. Praticamente toda ela é de cascalho e há uns bons trechos ao lado de ribanceira, sem proteção. Os momentos de tensão são permeados com o de estupefação diante da vista do lago General Carrera. Nessa estrada, pernoitamos na pequena Puerto Guadal.

De Aldana, dirigimos cerca de 260 km até a relativamente grande Coyhaique, com seus 60 mil habitantes. No caminho, vimos o quanto Puerto Río Tranquilo é voltado ao turismo, com passeios frequentes às Capillas de Mármol, formações rochosas incríveis no lago General Carrera.

De Coyhaique, percorremos 220 km para chegarmos a Puyuhuapi. No caminho, enfrentamos um tortuoso trecho no meio do Parque Nacional Queulat, em que, serra abaixo, dirigimos por 14 curvas fechadas e enlameadas. Ali, confirmamos que o coração está em dia.

Coincidentemente, um pouco antes do nosso destino, encontramos três casais de viajantes brasileiros —@muchachosbr_, @expedicaogombradi e @construindomemorias_br— e nos juntamos a eles para passar uma noite de comilança e conversa.

De manhã, rumamos para Caleta Gonzalo, mas, antes, paramos em Chaitén para comprar os bilhetes para as duas primeiras balsas (84.750 pesos chilenos/R$ 472,50) do dia seguinte. Nessa pernada, percorremos 240 km de asfalto bom. O desafio mesmo ficou entre as duas localidades no fim da viagem, por causa do cascalho e de buracos.

Na reta final da Carretera Austral, ficamos mais tempo na água do que na terra. Isso porque tivemos 30 minutos de ferry de Caleta Gonzalo a Fiordo Largo, de onde dirigimos por uns 10 minutos até Leptepu. Lá, pegamos outra balsa até Hornopirén, o que levou cerca de três horas e meia. Dirigimos, então, até Caleta Puelche, para uma última travessia aquática (11.510 pesos chilenos/R$ 65), de meia hora, até La Arena. Até avaliamos ficar por ali, mas decidimos conduzir noite adentro até Puerto Montt.

A cidade, onde está uma discreta placa do km 0 da Carretera Austral, é enorme, quando comparamos a todos os aglomerados urbanos que vimos na estrada. São quase 290 mil habitantes. A parada é estratégica, tanto para quem começa quanto para quem termina a Ruta 7, pois ali estão mecânicas, mercados grandes e outras comodidades que podem ser difíceis de encontrar mais pro sul. Nós aproveitamos para consertar o freio do Teras, danificado ainda na Ruta 40, na Argentina.

Mesmo com muitos trechos de cascalho, nos 900 km que percorremos da Carretera Austral, adoramos dirigir por lá. A paisagem é marcante, com muitas montanhas, pontes, lagos e árvores. Em abril, pudemos ver as diferentes tonalidades de verde e laranja que o outono proporciona. Foi uma experiência que voltaríamos a repetir!

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