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De Santiago ao Deserto do Atacama, vimos o Pacífico, vinícolas, cidade-fantasma e muitas montanhas


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Essa viagem de carro pela América tem nos apresentado a geografia peculiar dos nossos vizinhos. Já falamos sobre a necessidade de entrar e sair do Chile para transitar pela Argentina, de Buenos Aires ao Ushuaia. Mas também nos impressionamos com o comprimento do território chileno, de 4.300 km, praticamente o mesmo do Brasil, de 4.400 km. A diferença entre os dois fica na largura, de 347 km e 4.320 km, respectivamente. E percebemos esses números exorbitantes enquanto dirigíamos por estradas sem fim, de Santiago ao Deserto do Atacama.

Enquanto a Carretera Austral e o Parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile, nos mostraram muitos tons de verde, nas árvores e nas montanhas, e de azul, nos lagos e rios, na viagem de carro pelo centro-norte do país o que predominou foi o laranja do deserto e o marrom das rochas.

Após dirigirmos por 900 km em quatro dias pela Carretera Austral, levamos outros 1.000 km em três dias até a capital. No caminho, dormimos em Temuco e em Linares.

A cosmopolita Santiago

Santiago foi nosso primeiro destino internacional juntos, num encontro marcado: o Faraó fazia um mochilão pelo sul da América do Sul e combinou de estar no mesmo período em que a Pati visitava suas amigas de faculdade, em janeiro de 2011. Pouco mais de um mês depois começaríamos a namorar e, após 11 anos, iniciaríamos a nossa volta ao mundo.

A cidade, de 5,2 milhões de habitantes (dados de 2017), preserva sua longa história. Criada em 1541, se tornou capital em 1818. No centro antigo, é possível ver a Catedral Metropolitana, construída de 1748 a 1906, e o Palácio de La Moneda, sede da Presidência desde 1845 —antes, era voltado para a fabricação de moedas, o que originou o nome do local.

Foi lá onde o presidente Salvador Allende, eleito em 1970, foi entrincheirado e morreu três anos depois, num golpe de estado. Quem estava do outro lado eram os militares, e o general Augusto Pinochet assumiu o controle do país por 17 anos, até 1990. Durante a ditadura, cerca de 3.000 pessoas morreram ou desapareceram e mais de 40 mil foram torturadas.

Se em um dos lados do prédio está uma estátua de Salvador Allende, do outro fica o Memorial de Bernardo O’Higgins, um dos fundadores do país. Ele foi um dos comandantes da guerra pela independência do território, diante da Espanha, conflito que durou de 1810 a 1818, e o primeiro diretor supremo do Chile independente. O militar dá nome a várias ruas e à cidade onde termina a Carretera Austral, Villa O’Higgings.

​Um tipo de passeio que nos atrai é caminhar pelas ruas antigas, e assim vimos muitas banquinhas pela região peatonal, de venda de roupas a livros. Aproveitamos para comer no El Portal, antigo Bahamondes, onde o completo, cachorro-quente com abacate (palta, em espanhol), foi criado. Tanto ali quanto os estabelecimentos vizinhos estão cheios de propaganda do lanche e de pessoas interessadas em comê-lo.

A geografia peculiar do país se repete na capital, o que proporciona aos turistas subir nos cerros, ou colinas, para ver Santiago dos ares. Pulamos o Cerro Santa Lucia e fomos ao Cerro San Cristóbal. Pode-se subir ao topo a pé, de carro, de bicicleta, de teleférico ou de bonde. Optamos pelo último (4.500 pesos chilenos/R$ 25) e ficamos sem ar só de pensar em como as pessoas vão até lá com tração própria. Infelizmente, a poluição atrapalhou a contemplação da cidade.

Naturalmente, a capital chilena tem comodidades como a de outras cidades grandes, entre shoppings, cinemas, lojas, metrô e incontáveis bares e restaurantes. Ficamos no central San Diego, com muitas lojinhas de bairro e donos de cachorros —vimos por lá incontáveis pugs, e o Café, o nosso exemplar da raça, se sentiu em casa.

Rumo ao Atacama

​A capital fica a 1.600 km de San Pedro de Atacama, destino famoso entre turistas, e para lá rumamos em quatro dias. A primeira parada foi em Vicuña, a 600 km, já que queríamos visitar uma vinícola chilena. Muitas estão nos arredores de Santiago, próximas ao Oceano Pacífico, mas optamos por ir à Cavas del Valle, no Valle Elqui, região voltada à produção do pisco, bebida típica nos Andes. Lá, pudemos fazer uma degustação gratuita e ouvir uma explicação detalhada sobre a produção do vinho local.

Na sequência, rumamos para Caldera, a 500 km. O objetivo era chegar a Chañaral, mas o Faraó, enjoado o dia todo, passou mal no início da noite e mudamos os planos. Uma noite bem dormida o fez revigorar e, no outro dia, chegamos a Antofagasta, a 450 km.

O caminho mais lógico seria percorrermos a Ruta 5, um trecho da famosa Panamericana, que, teoricamente, liga a América de ponta a ponta. Mas preferimos dirigir por alguns trechos da Ruta 1, que margeia o Pacífico. Assim, pudemos ver a beleza do litoral chileno —mas não nos aventuramos em suas águas.

As ondas do mar inclusive nos motivaram a passar um dia a mais em Antofagasta, já que estacionamos o Teras, nossa Pajero 1998, de frente para o Pacífico. Estávamos esperançosos de ver o famosos pôr do sol, mas o tempo fechou de tal maneira que ficamos só na imaginação. Pelo menos foi gostoso dormir em nossa barraca escutando o movimento da água.

Em direção ao norte, passamos por Chacabuco, uma cidade-fantasma. O lugar foi uma das maiores minas de sal do território, entre mais de 170, e teve seu auge nos anos 1930. O lugar comportava até 5.000 pessoas, e as ruínas mostram todo o seu potencial. Hoje em dia, há um vigia que cuida de lá e cobra 2.500 pesos chilenos (R$ 14,50) dos visitantes. O complexo também serviu de campo de prisioneiros em 1973, durante a ditadura militar.

Finalmente chegamos a San Pedro de Atacama, e seu centro apinhado de turistas e de agências de passeio mostram o vigor que a cidade tem entre os estrangeiros. De lá, é possível contratar guias ou alugar carros ou bicicletas para visitar as atrações da região, como o Valle de la Muerte ou o Valle de la Luna.

O principal passeio, no entanto, é para o Salar de Uyuni, na vizinha Bolívia. Normalmente são de duas ou três noites e têm uma série de paradas. Faraó fez esse tour no sentido contrário em seu mochilão de 2011, e pretendíamos ir para lá em nosso giro de carro pela América, mas a atual situação política do país, envolvendo inúmeros protestos e bloqueios de estrada, pedindo a renúncia do presidente Rodrigo Paz, estão nos fazendo reavaliar o caminho.

Agora, de carro e com um cachorro, optamos por economizar nos passeios. Assim, dormimos uma noite em frente ao Magic Bus, um ônibus que atendia uma empresa mineradora e que foi abandonado no meio do nada. Também visitamos Machuca, uma vila a 4.200 m de altitude, onde fica uma igrejinha charmosa, e nos banhamos nas águas termais de Purilibre —as de Puritama, mais famosas, são pagas.

Investimos nosso dinheiro (13.714 pesos chilenos/R$ 79,50) na Lagoa Chaxa, onde se concentram muitos flamingos. No pôr do sol, o lugar é um arraso de espetáculo. Na cidade de San Pedro de Atacama, curtimos o Café Roots, com bom atendimento e saboroso café, sem falar na internet e no banho —sim, descobrir duchas por aí tem sido nosso novo normal.

A cidade está muito próxima das vizinhas Bolívia e Argentina, mas ainda é preciso percorrer mais de mil quilômetros até o Peru. Assim, voltamos novamente para o território argentino para podermos alcançar o pouco visitado Paraguai e descobrir o que o país oferece.

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